segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Um duelo em Marselha - por Cesar Alcázar



Ninguém percebeu o passo apressado do velho Dubois em meio ao tumulto habitual na região portuária de Marselha. Mesmo mancando, o homem, que vestia um casaco vermelho surrado, caminhava com rapidez impressionante para uma pessoa de sua idade. Quando chegou à taverna de Bouche Dorée, suspirou aliviado.
Dubois, com a respiração ofegante, cambaleou entre as mesas e foi logo sentando diante do balcão. Bouche sorriu para o amigo, exibindo sua coleção de dentes de ouro emoldurada por um vasto bigode branco. Dubois mal podia falar, e gesticulou para o taverneiro lhe trazer uma bebida.
– O que foi, Dubois? Está fugindo dos soldados outra vez? – indagou o homem de sorriso dourado enquanto enchia o caneco de rum.
– Acabei de presenciar algo terrível na frente do Forte Saint-Jean!
O velho Dubois sorveu um longo gole do rum para aumentar o suspense. Porém, Bouche não parecia estar muito interessado na novidade que ele tinha para contar.
– Lembra-se de Dupont e Fournier? – Dubois perguntou tentando despertar a curiosidade do amigo.
– Sim. Eram oficiais Hussardos. Devotaram suas vidas a um duelo sem fim. Mas, isso é uma história muito antiga, do tempo de nossos pais!
– Pois eu testemunhei um duelo como aqueles de Dupont e Fournier há cerca de uma hora!
– Um duelo?
– Com pistolas!
– Como aconteceu?
– Eu estava perto do Forte quando ouvi o burburinho. Um jovem do leste chamado Józef, bem jovem mesmo, deve ter uns dezoito anos, havia desafiado um certo capitão americano de nome Blunt para um duelo até a morte.
– Marinheiros?
– Dizem que eles contrabandeavam armas para os carlistas.
– Você sabe o motivo da luta? Mulheres? Dinheiro? Algo mais?
– E por que mais os homens se matam além de mulheres e dinheiro?
Dubois silenciou por alguns instantes para molhar a garganta com o rum. Depois, continuou sua narrativa:
Doña Rita... – suspirou o velho – Ela foi a causa. Uma espanhola belíssima que andava com eles. Eu mesmo teria matado por aquela mulher. Depois de encerrada a troca de balas, um marujo me contou o que acontecera. O rapaz Józef, deve ser russo ou algo parecido, foi seduzido por Doña Rita para se juntar aos contrabandistas. Józef é um ótimo marinheiro, apesar da pouca idade. No entanto, a mulher pertencia ao tal Blunt. Consta que o rapaz tentou fugir com Rita, e o capitão não permitiu. Ou ela não quis deixar o amante original, não sei bem. Sei que Józef, menino de coragem, desafiou o americano! Foi neste ponto que comecei a acompanhar a tragédia...
– Pelo jeito o garoto morreu.
– Deixe-me terminar!
– Sim, sim. Prossiga velho poeta! – ordenou Bouche em tom irônico.
 – Bem, como já disse, eu ouvi a agitação e fui até lá para ver o que estava acontecendo. Os dois homens se encontravam de costas um para o outro. Iriam duelar pelo Code Duello irlandês, embora não tivessem acompanhantes nem juízes. Ainda que fossem salteadores, deveriam ser homens honrados.
– Ninguém tentou impedi-los?
– Não. E até vi alguns guardas assistindo a tudo. Duelos são ilegais, mas você sabe como o povo gosta de sangue...
– Malditos abutres!
– Então, eles começaram: deram quinze passos em direções opostas. Acho que todos os presentes confiavam na perícia dos atiradores, pois ninguém arredou pé. Nenhum dos dois trapaceou. Deram meia volta ao mesmo tempo e atiraram. Não foi possível sequer ouvir dois estouros, tal sincronia dos tiros. Quando percebemos, os dois homens estavam no chão e uma espessa nuvem de fumaça pairava sobre os corpos. 
– Os dois tombaram?
– A bala do menino Józef atingiu o ombro esquerdo do capitão. Já Blunt, conseguiu acertar o projétil no lado direito do peito do rapaz. Um ferimento sério. Logo, os dois foram socorridos. Vi Doña Rita acompanhar o pessoal que ajudou Józef. Procurei saber mais sobre o caso e vim correndo para cá.
Dubois bebeu mais um gole do rum e secou os lábios na manga do casaco. Com um suspiro, ele continuou:
– Pobre Józef, está muito mal. Talvez não sobreviva.
– Seria melhor para ele não sobreviver... – disse uma voz que surpreendeu os dois amigos. Outra pessoa havia entrado na taverna sem ser percebida. Era um marujo de rosto sombrio e envelhecido, com uma enorme cicatriz a atravessar o lado esquerdo da face. Ele permanecera lá incógnito e ouvira quase toda a narração de Dubois.
– Por que você diz algo assim, senhor... – quis saber Bouche Dorée. – Tem algo contra o rapaz?
– Como podem perceber pela minha face, tive minha cota de escaramuças durante a vida. Vi e vivi coisas belas e outras terríveis. Posso afirmar que nada foi pior do que o duelo que marcou muito mais do que o meu rosto. Estive exatamente onde Józef está agora, por motivos semelhantes. Que infortúnio! Vi a história se repetir desde o início, e não fiz nada para interferir. Eu participei da mesma aventura de Józef e Blunt, contrabandeando armas para os rebeldes espanhóis. Sei que Józef ama Doña Rita de verdade. E sei também que ela embarcou em um navio com Blunt rumo à América agora há pouco. Ouçam o que digo, companheiros, nada pior do que conhecer a amargura dessa forma. Ainda mais quando ela vem acompanhada de uma bala no peito. Antes ela tivesse lhe atingido o coração, o culpado de tudo.  

domingo, 20 de outubro de 2013

The coming of Anrath - The Black Hound



Em breve na revista digital Heroic Fantasy Quarterly: "A lonely grave on the hill", by Cesar Alcázar. Minha primeira publicação internacional.

Anrath, o Cão Negro (agora The Black Hound), cavalga por terras estrangeiras!