quinta-feira, 25 de abril de 2013

Segredos - Por Cesar Alcázar


Agora consigo lembrar com clareza dos anos sombrios passados naquela casa em Calle San Martín. São inúmeras as memórias sufocadas dentro de minha mente por todo esse tempo. A mordaça psicológica que me calava por fim desapareceu. Sinto como se apenas hoje recebesse de volta um pedaço de mim que havia sido roubado.
Miserere mei, Deus. “Misericórdia de mim, Deus!” dizia a empregada Juanita todas as manhãs quando chegava para trabalhar na casa em que eu vivia com meus pais. Naqueles dias, eu não tinha idéia do significado das palavras da velha senhora. Quando li o jornal esta manhã, pude enfim compreender. Ela sabia o que acontecia no opressivo casarão de três andares construído no fim do Século XIX.
Enquanto o país mergulhava na mais longa e escura noite de sua história, vivi minhas próprias trevas. O pesadelo durou dos meus oito aos catorze anos de idade, mais precisamente de 1976 a 1982. Antes disso, minhas memórias são as de um menino normal e feliz, embora houvesse certa sensação de estranhamento. Sobretudo devido à cicatriz que atravessa o lado direito de meu corpo da cintura até o ombro, da qual jamais me foi falada a origem. Hoje tenho certeza do que se trata.
Como quase toda criança, eu tinha medo do escuro. No entanto, o medo não era infundado. Sempre tive a impressão de ser observado através das frestas na madeira, além de ouvir passos débeis e até mesmos suspiros no sótão acima do quarto quando anoitecia. O que me apavorava.
Sempre fui muito solitário. Encontrei a amizade apenas em Ana, filha de Francesca, uma empregada que morava conosco. Eu não podia ter amigos fora de casa por causa do trabalho de meu pai. “Alguém poderia usar você para chegar até ele”, lembro de ouvir minha mãe falar.
A situação ficou pior quando completei oito anos de idade. Se antes havia apenas o sentimento de algo estranho no ar, agora o medo era palpável. Podia ter certeza de que alguma coisa vivia no sótão e entre as paredes da casa. Minha imaginação infantil concebia um monstro horrendo e sedento de sangue prestes a saltar da parede para me pegar.   
“São essas porcarias que você assiste! Devíamos proibi-los todos!” foi a explicação de meu pai.
Os filmes de Terror não tiveram sua proibição decretada nos cinemas, o veto atingiu apenas a mim. Além disso, acordei certa manhã e notei que todas as minhas historietas do Eternauta, Sargento Kirk e Guerra dos Antartes haviam desaparecido. Só muito mais tarde na vida percebi que foram tantos os desaparecimentos daqueles dias.
Nesta mesma época, meus pais começaram a brigar com freqüência. Entre tantos gritos, eu conseguia entender meu pai dizendo “... o seu filho...” diversas vezes. Após cada discussão, ele subia ao sótão e ficava gritando sozinho por horas. Era possível ouvi-lo batendo os pés com raiva no piso de madeira.
Certo dia, esperei que ele descesse e pedi para que nunca mais subisse até lá por causa do monstro. Levei a maior surra de minha vida. Depois, levaram-me a um psicólogo, numa tentativa de me fazer esquecer o que chamavam de “fantasias doentias”.
Mesmo assim, continuei a vivenciar a atmosfera de medo em Calle San Martín. Entretanto, os primeiros anos de adolescência me trouxeram um pouco de paz. Fiquei cada vez mais ligado a Ana, por quem me apaixonei. Passávamos o dia inteiro juntos. Como meus pais gostavam muito de Francesca, Ana teve a oportunidade de freqüentar a mesma escola que eu, diminuindo meu isolamento.
Essa idade, é óbvio, não passa incólume de incidentes. No meu caso foi pior, muito pior. O fato selador de meu destino como um homem sem memória aconteceu no dia seguinte ao meu aniversário de catorze anos.
Ana estava comigo no pátio de casa. Todos os dias, ficávamos conversando no pequeno coreto até o fim da tarde. Neste dia em particular, meu pais haviam saído para um baile dos militares. Aproveitamos a ocasião e entramos noite adentro fazendo companhia um ao outro. Então, depois de tomar coragem, revelei a Ana sobre meus medos de outrora, sobre a criatura no sótão.
Ela riu sem parar durante um bom tempo. Confesso que senti vergonha por parecer tão medroso. Tão logo parou de rir, a expressão de Ana mudou. Lembro agora exatamente do que ela disse em seguida: “às vezes, minha mãe também sente coisas estranhas, como se estivesse sendo observada...”. Ana sorriu outra vez e continuou: “Já sei! Vamos subir no sótão!”.
Quando ouvi essas palavras, senti um frio na espinha. Ana, sem titubear, pegou minha mão e me levou para o terceiro andar. Apanhamos uma cadeira e a colocamos abaixo da portinhola. Assim consegui puxar o cordão que fazia a escada do sótão descer. O cheiro de mofo e podridão penetrou nossas narinas.
Com o aparato armado, ela fez questão de ir à frente. Queria demonstrar mais coragem do que eu. Tão logo se aproximou do alçapão, vimos um movimento no escuro. Ana não recuou. Acendeu um fósforo e estendeu o braço para iluminar o caminho. Então, aconteceu.           
A coisa agarrou o braço da menina e tentou puxá-la para dentro do sótão. Segurei-a com força, mas não o suficiente, pois ela estava sendo tragada pela escuridão. Por sorte, Francesca ouviu os gritos e correu ao nosso socorro. A mulher conseguiu resgatar sua filha e, com uma rapidez incrível, fechou a porta do sótão. Não conseguimos ver a criatura. 
Logo, Juanita apareceu. Seu rosto, uma máscara de condenação. Enquanto ela ajudava a cuidar dos ferimentos de Ana, enormes e profundos arranhões nos braços e no pescoço, nos reprovava com veemência por ter feito o que não devíamos. Francesca questionou a velha sobre o sótão. Juanita apenas respondeu: “Isso diz respeito apenas ao Señor Rivera!”.
Meus pais chegaram e nos encontraram reunidos na sala. Imaginei que haveria uma grande discussão, no entanto, isso não ocorreu. Meu pai pediu para conversar em particular com Juanita e Francesca. Ele não parecia abalado, e sim, frio como de costume. Mais ou menos uma hora deve ter se passado até que ele retornasse com as duas mulheres. Francesca levou a filha da sala, e fiquei lá sozinho com os três remanescentes. A frase que ouvi a seguir retumba neste instante dentro da minha cabeça: “Essa foi a gota d’água!”.
Acusaram-me de ter machucado Ana. Nunca tive a chance de falar com ela sobre o acontecido. Na manhã posterior, Francesca e ela foram embora da Calle San Martín. Ganharam muito dinheiro para permanecerem caladas, é bastante provável. À noite, chegou minha vez de partir. Enviaram-me para uma instituição psiquiátrica, devido a supostas alucinações e comportamento violento.  
Foram dois longos anos de terapias, choques e medicação pesada, até que tudo o que acontecera se tornasse um vazio em minha mente. Um grande vazio que perdurou até alguns minutos atrás. Voltei para casa como um morto-vivo.  
Um ano depois, em 1985, após a queda do regime, precipitado por uma guerra atroz, meu pai foi preso e condenado. Ele cometeu suicídio na primeira semana de prisão. Minha mãe faleceu pouco tempo depois. De Juanita, Francesca e Ana nunca mais tive notícias, e se tivesse, de nada adiantaria, pois não lembrava delas. Parecia que o segredo de Calle San Martín estava enterrado para sempre em minha memória.
Segredos como esse não podem persistir. Devemos fazer o possível para resgatar os horrores de nossos passados. Por mais que venha a doer. Enfim, tenho a minha oportunidade de reviver o passado. Pois todos estes fatos narrados aqui ressurgiram em um turbilhão de memórias quando o horror bateu à minha porta junto com o jornal hoje pela manhã. Uma ossada “quase humana” havia sido encontrada no sótão da velha casa em Calle San Martín. Meu irmão. 




Conto publicado originalmente na antologia digital "O mal bate à sua porta", organizada por Christian David. Copyright 2011 by Cesar Alcázar