sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Primeira resenha internacional!

O blog da Revista Black Gate - Adventures in Fantasy Literature comenta "A Lonely Grave on the Hill":

The story is very successful at evoking the misty-shrouded Irish night and presenting the two men’s contrasting memories of the battles they fought.


Para ver a resenha completa, clique na imagem abaixo:


"A Lonely Grave on the Hill" foi publicada em Novembro na edição #18 da revista digital Heroic Fantasy Quarterly.

Não há heróis como os irlandeses...

"Então Cúchulainn deu a volta na tropa até chegar a Áth nGrencha. Lá ele cortou um galho forcado com um golpe de sua espada e fixou-o no meio do córrego para que nenhuma biga pudesse passar de um lado ou do outro. Enquanto ele estava assim ocupado, Eirr e Indell com seus dois cocheiros, Fóich e Fochlam, o alcançaram. Ele cortou a cabeça dos quatro e as empalou nos quatro dentes do galho forcado."

Táin Bó Cúailnge



segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Eu estava lá: Pelos caminhos de Frankenstein


Escritores subindo às escadas da Biblioteca para criarem contos de terror. Foto Leocádia Costa / CRL / Divulgação

Por Luiz Gonzaga Lopes - Jornal Correio do Povo

A noite de sábado e a madrugada de domingo foram de recriar um evento por um portal de 197 anos de história. Do verão chuvoso de 1816 em Genebra, na Suíça, quando Lord Byron propôs o desafio de produzir uma história de terror durante uma noite, aceito por Mary Shelley, autora de Frankenstein, e John William Polidori, o recorte histórico se deu para madrugada deste domingo, quando 18 autores de literatura fantástica, policial e terror escreveram seus contos na atmosfera lúgubre, silenciosa, cercada de mistério e que igualmente atravessa séculos da Biblioteca Pública do Estado, construída em 1871.

O Tu Frankenstein 2 teve como ponto alto esta ação construída em conjunto pela Câmara Rio-Grandense do Livro, em parceria com o Fantaspoa e com a Odisseia de Literatura Fantástica de Porto Alegre. Por volta das 19h30min de sábado, os escritores brasileiros e estrangeiros seguiram em cortejo desde o Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, passando pela rua General Câmara até o prédio da Biblioteca. A recepção aos escritores, convidados e jornalistas foi feita pelo próprio Frankenstein. O patrono da 59ª Feira do Livro, Luís Augusto Fischer, e o vice-presidente da Câmara do Livro, participaram da parte inicial da atividade. Os curadores do projeto Jussara Rodrigues, João Pedro Fleck, Duda Falcão e Gustavo Nielsen.



Frankenstein saúda Federico Andahazi. Foto Leocádia Costa / CRL / Divulgação

O momento inicial foi a apresentação dos autores Gustavo Nielsen (Argentina), Alexis Aubenque (França), Sean Branney (EUA), Federico Andahazi (Argentina) e os brasileiros Felipe Guerra, João Pedro Fleck, Duda Falcão, Marcelo Amado, Celly Borges, Guilherme Fraga, Cesar Alcázar, Carlos Patati, Bráulio Tavares, Christopher Kastensmidt, Simone Saueressig, Felipe Castilho, Max Mallmann e Carlos André Moreira. Logo depois, os escritores ouviram da diretora da Biblioteca Pública, Morgana Marcon, sobre o prédio com forte influência positivista, aberto ao público em 1922. Os autores foram instalados no Salão Mourisco, inspirados nos salões do Palais de Versailles e com pinturas murais de Fernando Schlater.

Com seus notebooks e alguns escritores fazendo anotações em um caderno, o trabalho de criação se iniciou efetivamente por volta das 20h. Com a iluminação reduzida a atmosfera para a criação estava assegurada. O silêncio e ar lugúbre do local foram entrecortadas por uma menina de vestido branco e pelo pianista Roberto Pinheiro, que reinjetou adrenalina aos autores por volta das 3h da manhã. Volta e meia algum autor descia para comer algo no primeiro piso. O francês Alexis Aubenque disse que era a primeira vez que participava de uma atividade como essa e elogiou a iniciativa. No começo da atividade, o seu conto era intitulado “Sete horas em Porto Alegre” e teria um crime, sendo uma espécie de paródia do seu livro Sete Dias em River Falls.

O resultado da experiência será publicado em 2014 pela Editora Dublinense e deverá também ser reproduzido na Argentina. Segundo Duda Falcão, um dos curadores do projeto, a ideia é que o trabalho coletivo seja lançado na Feira do Livro do ano que vem. “O meu conto se chamou ‘Devoradores de Narrativas’ e trata de uns alienígenas parecidos com ácaros que estavam dentro de livros raros da Biblioteca e são lidos por um vigia noturno, meu personagem. Estes seres devoram palavras e também o vigia, que volta em forma de monstro/zumbi e passa a devorar as demais pessoas”, afirma Duda. Max Mallmann disse que aproveitou uma informação da diretora da Biblioteca de que na gestão de Ado Malagoli as pinturas murais da sala de leitura foram recobertas de cinza para não atrapalhar os leitores. “A partir disto, criei o conto ‘O Vórtice’, pois embaixo da pintura cinza estão vórtices, passagens interdimensionais para outros mundos”, finaliza.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

"A lonely grave on the hill", by Cesar Alcázar

Já online na edição #18 da revista digital Heroic Fantasy Quarterly: "A lonely grave on the hill", by Cesar Alcázar. Simply put, the best Celt/Viking story you’ll read by a Brazilian author, ever. (The editors)


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Um duelo em Marselha - por Cesar Alcázar



Ninguém percebeu o passo apressado do velho Dubois em meio ao tumulto habitual na região portuária de Marselha. Mesmo mancando, o homem, que vestia um casaco vermelho surrado, caminhava com rapidez impressionante para uma pessoa de sua idade. Quando chegou à taverna de Bouche Dorée, suspirou aliviado.
Dubois, com a respiração ofegante, cambaleou entre as mesas e foi logo sentando diante do balcão. Bouche sorriu para o amigo, exibindo sua coleção de dentes de ouro emoldurada por um vasto bigode branco. Dubois mal podia falar, e gesticulou para o taverneiro lhe trazer uma bebida.
– O que foi, Dubois? Está fugindo dos soldados outra vez? – indagou o homem de sorriso dourado enquanto enchia o caneco de rum.
– Acabei de presenciar algo terrível na frente do Forte Saint-Jean!
O velho Dubois sorveu um longo gole do rum para aumentar o suspense. Porém, Bouche não parecia estar muito interessado na novidade que ele tinha para contar.
– Lembra-se de Dupont e Fournier? – Dubois perguntou tentando despertar a curiosidade do amigo.
– Sim. Eram oficiais Hussardos. Devotaram suas vidas a um duelo sem fim. Mas, isso é uma história muito antiga, do tempo de nossos pais!
– Pois eu testemunhei um duelo como aqueles de Dupont e Fournier há cerca de uma hora!
– Um duelo?
– Com pistolas!
– Como aconteceu?
– Eu estava perto do Forte quando ouvi o burburinho. Um jovem do leste chamado Józef, bem jovem mesmo, deve ter uns dezoito anos, havia desafiado um certo capitão americano de nome Blunt para um duelo até a morte.
– Marinheiros?
– Dizem que eles contrabandeavam armas para os carlistas.
– Você sabe o motivo da luta? Mulheres? Dinheiro? Algo mais?
– E por que mais os homens se matam além de mulheres e dinheiro?
Dubois silenciou por alguns instantes para molhar a garganta com o rum. Depois, continuou sua narrativa:
Doña Rita... – suspirou o velho – Ela foi a causa. Uma espanhola belíssima que andava com eles. Eu mesmo teria matado por aquela mulher. Depois de encerrada a troca de balas, um marujo me contou o que acontecera. O rapaz Józef, deve ser russo ou algo parecido, foi seduzido por Doña Rita para se juntar aos contrabandistas. Józef é um ótimo marinheiro, apesar da pouca idade. No entanto, a mulher pertencia ao tal Blunt. Consta que o rapaz tentou fugir com Rita, e o capitão não permitiu. Ou ela não quis deixar o amante original, não sei bem. Sei que Józef, menino de coragem, desafiou o americano! Foi neste ponto que comecei a acompanhar a tragédia...
– Pelo jeito o garoto morreu.
– Deixe-me terminar!
– Sim, sim. Prossiga velho poeta! – ordenou Bouche em tom irônico.
 – Bem, como já disse, eu ouvi a agitação e fui até lá para ver o que estava acontecendo. Os dois homens se encontravam de costas um para o outro. Iriam duelar pelo Code Duello irlandês, embora não tivessem acompanhantes nem juízes. Ainda que fossem salteadores, deveriam ser homens honrados.
– Ninguém tentou impedi-los?
– Não. E até vi alguns guardas assistindo a tudo. Duelos são ilegais, mas você sabe como o povo gosta de sangue...
– Malditos abutres!
– Então, eles começaram: deram quinze passos em direções opostas. Acho que todos os presentes confiavam na perícia dos atiradores, pois ninguém arredou pé. Nenhum dos dois trapaceou. Deram meia volta ao mesmo tempo e atiraram. Não foi possível sequer ouvir dois estouros, tal sincronia dos tiros. Quando percebemos, os dois homens estavam no chão e uma espessa nuvem de fumaça pairava sobre os corpos. 
– Os dois tombaram?
– A bala do menino Józef atingiu o ombro esquerdo do capitão. Já Blunt, conseguiu acertar o projétil no lado direito do peito do rapaz. Um ferimento sério. Logo, os dois foram socorridos. Vi Doña Rita acompanhar o pessoal que ajudou Józef. Procurei saber mais sobre o caso e vim correndo para cá.
Dubois bebeu mais um gole do rum e secou os lábios na manga do casaco. Com um suspiro, ele continuou:
– Pobre Józef, está muito mal. Talvez não sobreviva.
– Seria melhor para ele não sobreviver... – disse uma voz que surpreendeu os dois amigos. Outra pessoa havia entrado na taverna sem ser percebida. Era um marujo de rosto sombrio e envelhecido, com uma enorme cicatriz a atravessar o lado esquerdo da face. Ele permanecera lá incógnito e ouvira quase toda a narração de Dubois.
– Por que você diz algo assim, senhor... – quis saber Bouche Dorée. – Tem algo contra o rapaz?
– Como podem perceber pela minha face, tive minha cota de escaramuças durante a vida. Vi e vivi coisas belas e outras terríveis. Posso afirmar que nada foi pior do que o duelo que marcou muito mais do que o meu rosto. Estive exatamente onde Józef está agora, por motivos semelhantes. Que infortúnio! Vi a história se repetir desde o início, e não fiz nada para interferir. Eu participei da mesma aventura de Józef e Blunt, contrabandeando armas para os rebeldes espanhóis. Sei que Józef ama Doña Rita de verdade. E sei também que ela embarcou em um navio com Blunt rumo à América agora há pouco. Ouçam o que digo, companheiros, nada pior do que conhecer a amargura dessa forma. Ainda mais quando ela vem acompanhada de uma bala no peito. Antes ela tivesse lhe atingido o coração, o culpado de tudo.  

domingo, 20 de outubro de 2013

The coming of Anrath - The Black Hound



Em breve na revista digital Heroic Fantasy Quarterly: "A lonely grave on the hill", by Cesar Alcázar. Minha primeira publicação internacional.

Anrath, o Cão Negro (agora The Black Hound), cavalga por terras estrangeiras!



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Caim e o Cão Negro mais uma vez!

A antologia Mundos Distantes, da editora 9Bravos, já está disponível. O livro conta com duas histórias de minha autoria, além de textos dos autores Christopher Kastensmidt e Marcelo Augusto Galvão


A Cidade dos Mil Pilares é um conto protagonizado por Caim Hoonholtz, e se passa alguns meses antes da aventura Sonhos de Ópio na Casa Dourada do Pecado (publicada na Revista Arte & Letra: Estórias). A ação se desenrola no deserto Rub' al Khali durante a I Guerra Mundial. Caim e seu guia Haroun caçam um tesouro enterrado pelo poeta e contrabandista Arthur Rimbaud no meio de misteriosas ruínas, enquanto são caçados por Le Rouge, um desafeto de Caim. 

Lobos traz de volta às páginas o guerreiro irlandês Anrath, o Cão Negro de Clontarf, que já teve histórias publicadas nos livros Bazar Pulp e Sagas Vol. 1 (e em breve estreará no exterior). O passado, maior inimigo de Anrath, volta a atormentá-lo em um conto tenso, todo ambientado dentro de uma taverna. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Ajude a lançar a primeira HQ do Votu!

Um projeto muito bacana que tomei conhecimento no ano passado: "Votu - O Demônio da Amazônia" é uma HQ de Horror escrita por Mario Lima Cavalcanti e desenhada por Pedro Elefante. Agora a dupla lança o projeto no Catarse em busca de patrocinadores. Recomendo!






segunda-feira, 3 de junho de 2013

Sonhos de Ópio na Casa Dourada do Pecado

Na edição "U" da revista "Arte & Letra: Estórias": meu conto Sonhos de Ópio na Casa Dourada do Pecado, primeira história protagonizada pelo aventureiro Caim Hoonholtz a ser publicada.  


Um antro de vício e perversão. Foi exatamente isso que o grisalho coronel Frederick Mohr pensou ao entrar na casa de ópio. A zona portuária de Hong Kong, rica em estabelecimentos desse ramo, não era uma região das mais recomendáveis para um cavalheiro de sua classe. Não fosse a necessidade de encontrar um homem habituado a tal espécie de lugar, jamais estaria ali. A iluminação era fraca. Camas e almofadas se espalhavam pelas salas apertadas de teto baixo. Homens em sono inebriado jaziam por todos os lados, até mesmo no chão. O ar estava pesado e recendia a fumaça, suor e sujeira.

Mohr fora um oficial da marinha britânica por muitos anos. Agora aposentado, dedicava seu tempo ao comércio marítimo. Apesar da riqueza, tinha um problema difícil de ser resolvido de forma limpa. Um problema capaz de fazer um inglês rico e esnobe se aventurar pelo lado sórdido da existência humana.

Funcionários da casa lhe ofereceram ópio. No entanto, ele precisava apenas de informações, nada mais. Teve uma breve conversa com os anfitriões do lugar, o que lhe custou algumas libras, e foi direcionado ao indivíduo de reputação duvidosa que procurava.

O homem estava em um canto escuro da sala. Tinha a cabeça deitada em cima da mesa e escondida pelos braços. Mohr pediu a um empregado da casa para trazer uma vasilha com água, cujo conteúdo foi logo despejado sobre o homem adormecido. O inglês então falou:     

– Caim Hoonholtz, eu presumo. 

Arte de Pedro Elefante.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Caim Hoonholtz está chegando!


Bastardo. Marinheiro. Mercenário. Pirata. Contrabandista. Assassino. Caim Hoonholtz é tudo isso, mas, no fundo, é um cara legal. Filho de uma prostituta brasileira e de (segundo ele) um nobre prussiano, Caim viaja ao redor do mundo vivendo infames aventuras. Das ruas de Dublin durante o Levante da Páscoa ao deserto de Rub' al Khali em meio à I Grande Guerra, Caim luta para sobreviver, sempre tentando levar alguma vantagem em tudo.  

"Sonhos de Ópio na Casa Dourada do Pecado", por Pedro Elefante

Criado em 2011, Caim Hoonholtz segue os passos de Anrath, o Cão Negro de Clontarf, e protagoniza uma série de aventuras que começará a ser publicada em breve:

A Cidade dos Mil Pilares é a história que introduz Caim. A ação se desenrola no deserto Rub' al Khali durante a I Guerra Mundial. Caim e seu guia Haroun caçam um tesouro enterrado pelo poeta e contrabandista Arthur Rimbaud no meio de misteriosas ruínas, enquanto são caçados por Le Rouge, um desafeto de Caim. O conto A Cidade dos Mil Pilares será publicado na antologia Mundos Distantes, da editora 9Bravos, com data de lançamento a ser definida.

"Mundos Distantes" - Editora 9Bravos.

Sonhos de Ópio na Casa Dourada do Pecado se passa poucos meses depois da primeira aventura, e mostra um Caim entregue aos vícios. Sua rotina de excessos em casas de ópio é interrompida quando um ex-militar surge com uma proposta: resgatar uma jovem aliciada pelas perigosas Tríades chinesas. A busca de Caim o leva até a Casa Dourada, bordel mais requisitado de Hong Kong, onde ele encontrará um cenário de pesadelo. Apesar de ser o segundo conto do personagem, Sonhos de Ópio na Casa Dourada do Pecado ganhará as páginas primeiro, na edição “U” da revista Arte & Letra: Estórias (lançamento previsto para o fim de Maio).  

"Arte & Letra: Estórias" - Editora Arte & Letra

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Segredos - Por Cesar Alcázar


Agora consigo lembrar com clareza dos anos sombrios passados naquela casa em Calle San Martín. São inúmeras as memórias sufocadas dentro de minha mente por todo esse tempo. A mordaça psicológica que me calava por fim desapareceu. Sinto como se apenas hoje recebesse de volta um pedaço de mim que havia sido roubado.
Miserere mei, Deus. “Misericórdia de mim, Deus!” dizia a empregada Juanita todas as manhãs quando chegava para trabalhar na casa em que eu vivia com meus pais. Naqueles dias, eu não tinha idéia do significado das palavras da velha senhora. Quando li o jornal esta manhã, pude enfim compreender. Ela sabia o que acontecia no opressivo casarão de três andares construído no fim do Século XIX.
Enquanto o país mergulhava na mais longa e escura noite de sua história, vivi minhas próprias trevas. O pesadelo durou dos meus oito aos catorze anos de idade, mais precisamente de 1976 a 1982. Antes disso, minhas memórias são as de um menino normal e feliz, embora houvesse certa sensação de estranhamento. Sobretudo devido à cicatriz que atravessa o lado direito de meu corpo da cintura até o ombro, da qual jamais me foi falada a origem. Hoje tenho certeza do que se trata.
Como quase toda criança, eu tinha medo do escuro. No entanto, o medo não era infundado. Sempre tive a impressão de ser observado através das frestas na madeira, além de ouvir passos débeis e até mesmos suspiros no sótão acima do quarto quando anoitecia. O que me apavorava.
Sempre fui muito solitário. Encontrei a amizade apenas em Ana, filha de Francesca, uma empregada que morava conosco. Eu não podia ter amigos fora de casa por causa do trabalho de meu pai. “Alguém poderia usar você para chegar até ele”, lembro de ouvir minha mãe falar.
A situação ficou pior quando completei oito anos de idade. Se antes havia apenas o sentimento de algo estranho no ar, agora o medo era palpável. Podia ter certeza de que alguma coisa vivia no sótão e entre as paredes da casa. Minha imaginação infantil concebia um monstro horrendo e sedento de sangue prestes a saltar da parede para me pegar.   
“São essas porcarias que você assiste! Devíamos proibi-los todos!” foi a explicação de meu pai.
Os filmes de Terror não tiveram sua proibição decretada nos cinemas, o veto atingiu apenas a mim. Além disso, acordei certa manhã e notei que todas as minhas historietas do Eternauta, Sargento Kirk e Guerra dos Antartes haviam desaparecido. Só muito mais tarde na vida percebi que foram tantos os desaparecimentos daqueles dias.
Nesta mesma época, meus pais começaram a brigar com freqüência. Entre tantos gritos, eu conseguia entender meu pai dizendo “... o seu filho...” diversas vezes. Após cada discussão, ele subia ao sótão e ficava gritando sozinho por horas. Era possível ouvi-lo batendo os pés com raiva no piso de madeira.
Certo dia, esperei que ele descesse e pedi para que nunca mais subisse até lá por causa do monstro. Levei a maior surra de minha vida. Depois, levaram-me a um psicólogo, numa tentativa de me fazer esquecer o que chamavam de “fantasias doentias”.
Mesmo assim, continuei a vivenciar a atmosfera de medo em Calle San Martín. Entretanto, os primeiros anos de adolescência me trouxeram um pouco de paz. Fiquei cada vez mais ligado a Ana, por quem me apaixonei. Passávamos o dia inteiro juntos. Como meus pais gostavam muito de Francesca, Ana teve a oportunidade de freqüentar a mesma escola que eu, diminuindo meu isolamento.
Essa idade, é óbvio, não passa incólume de incidentes. No meu caso foi pior, muito pior. O fato selador de meu destino como um homem sem memória aconteceu no dia seguinte ao meu aniversário de catorze anos.
Ana estava comigo no pátio de casa. Todos os dias, ficávamos conversando no pequeno coreto até o fim da tarde. Neste dia em particular, meu pais haviam saído para um baile dos militares. Aproveitamos a ocasião e entramos noite adentro fazendo companhia um ao outro. Então, depois de tomar coragem, revelei a Ana sobre meus medos de outrora, sobre a criatura no sótão.
Ela riu sem parar durante um bom tempo. Confesso que senti vergonha por parecer tão medroso. Tão logo parou de rir, a expressão de Ana mudou. Lembro agora exatamente do que ela disse em seguida: “às vezes, minha mãe também sente coisas estranhas, como se estivesse sendo observada...”. Ana sorriu outra vez e continuou: “Já sei! Vamos subir no sótão!”.
Quando ouvi essas palavras, senti um frio na espinha. Ana, sem titubear, pegou minha mão e me levou para o terceiro andar. Apanhamos uma cadeira e a colocamos abaixo da portinhola. Assim consegui puxar o cordão que fazia a escada do sótão descer. O cheiro de mofo e podridão penetrou nossas narinas.
Com o aparato armado, ela fez questão de ir à frente. Queria demonstrar mais coragem do que eu. Tão logo se aproximou do alçapão, vimos um movimento no escuro. Ana não recuou. Acendeu um fósforo e estendeu o braço para iluminar o caminho. Então, aconteceu.           
A coisa agarrou o braço da menina e tentou puxá-la para dentro do sótão. Segurei-a com força, mas não o suficiente, pois ela estava sendo tragada pela escuridão. Por sorte, Francesca ouviu os gritos e correu ao nosso socorro. A mulher conseguiu resgatar sua filha e, com uma rapidez incrível, fechou a porta do sótão. Não conseguimos ver a criatura. 
Logo, Juanita apareceu. Seu rosto, uma máscara de condenação. Enquanto ela ajudava a cuidar dos ferimentos de Ana, enormes e profundos arranhões nos braços e no pescoço, nos reprovava com veemência por ter feito o que não devíamos. Francesca questionou a velha sobre o sótão. Juanita apenas respondeu: “Isso diz respeito apenas ao Señor Rivera!”.
Meus pais chegaram e nos encontraram reunidos na sala. Imaginei que haveria uma grande discussão, no entanto, isso não ocorreu. Meu pai pediu para conversar em particular com Juanita e Francesca. Ele não parecia abalado, e sim, frio como de costume. Mais ou menos uma hora deve ter se passado até que ele retornasse com as duas mulheres. Francesca levou a filha da sala, e fiquei lá sozinho com os três remanescentes. A frase que ouvi a seguir retumba neste instante dentro da minha cabeça: “Essa foi a gota d’água!”.
Acusaram-me de ter machucado Ana. Nunca tive a chance de falar com ela sobre o acontecido. Na manhã posterior, Francesca e ela foram embora da Calle San Martín. Ganharam muito dinheiro para permanecerem caladas, é bastante provável. À noite, chegou minha vez de partir. Enviaram-me para uma instituição psiquiátrica, devido a supostas alucinações e comportamento violento.  
Foram dois longos anos de terapias, choques e medicação pesada, até que tudo o que acontecera se tornasse um vazio em minha mente. Um grande vazio que perdurou até alguns minutos atrás. Voltei para casa como um morto-vivo.  
Um ano depois, em 1985, após a queda do regime, precipitado por uma guerra atroz, meu pai foi preso e condenado. Ele cometeu suicídio na primeira semana de prisão. Minha mãe faleceu pouco tempo depois. De Juanita, Francesca e Ana nunca mais tive notícias, e se tivesse, de nada adiantaria, pois não lembrava delas. Parecia que o segredo de Calle San Martín estava enterrado para sempre em minha memória.
Segredos como esse não podem persistir. Devemos fazer o possível para resgatar os horrores de nossos passados. Por mais que venha a doer. Enfim, tenho a minha oportunidade de reviver o passado. Pois todos estes fatos narrados aqui ressurgiram em um turbilhão de memórias quando o horror bateu à minha porta junto com o jornal hoje pela manhã. Uma ossada “quase humana” havia sido encontrada no sótão da velha casa em Calle San Martín. Meu irmão. 




Conto publicado originalmente na antologia digital "O mal bate à sua porta", organizada por Christian David. Copyright 2011 by Cesar Alcázar

sexta-feira, 15 de março de 2013

Crônicas de Espada e Magia


O próximo lançamento da editora Arte & Letra, em coedição com a Argonautas, será Crônicas de Espada e Magia. Essa antologia reúne clássicos inéditos no Brasil de autores como Robert E. Howard, Michael Moorcock, Fritz Leiber, Karl Edward Wagner e George R. R. Martin. Além de Saladin Ahmed e os brasileiros Carlos Orsi, Thiago Tizzot, Max Mallmann, Ana Cristina Rodrigues e Roberto De Sousa Causo. Organização minha. Também traduzi os contos O Vale do Verme (The Valley of the Worm), de Robert E. Howard, As Canções Solitárias de Laren Dorr (The Lonely Songs of Laren Dorr), de George R. R. Martin, Crepúsculo de Dois Sois (Two Suns Setting), de Karl Edward Wagner e Onde Mora a Virtude (Where Virtue Lives), de Saladin Ahmed. Nas livrarias em Abril!




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

PULP-O-MIZER

PULP-O-MIZER é um aplicativo online que gera capas de livros/revistas em estilo pulp. Diversão garantida! 

 A capa acima foi inspirada no meu conto "A Cidade dos Mil Pilares", que será publicado no livro Mundos Distantes, da Editora 9Bravos. 

Criei essa capa para meu conto "Na Solidão de Phobos", publicado no livro Estranhas Invenções, editora Ornitorrinco.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Anrath rides again!


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Em breve a 9Bravos publicará o primeiro volume de Mundos Distantes, uma publicação composta por textos de três diferentes autores.
O livro inclui três histórias fantásticas que ocorrem em diferentes cenários: “Caminho para o purgatório”, aventura com muito mistério e protagonizada por um investigador implacável, por Marcelo Augusto Galvão; “A Cidade dos Mil Pilares”, uma caça ao tesouro no deserto com um renegado do exército britânico e seu fiel ajudante, por Cesar Alcázar; e “Um Pedaço de Madeira, uma Planície de Poeira”, a viagem de um rei decadente e o que restou de sua corte por uma terra inóspita e mágica, por Christopher Kastensmidt.
Além de tudo isso, você ainda poderá ler “Lobos“, um conto bônus com o guerreiro irlandês Anrath, personagem de Cesar Alcázar.
A ilustração de capa é de Caio Yo e o layout será de Cristiane Viana.
Mais informações em breve.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Media Stalker's: Mais um conto triste - Mini conto da amiga Deborah Cattani

Media Stalker's: Mais um conto triste: E os sonhos se foram junto com o dinheiro. Marina não se importou, nunca gostou de sonhar. Não achava seguro, muito menos pruden...