domingo, 18 de dezembro de 2011

O Conan de Jorge Luis Borges busca pela Palavra :)

"Assim teve início a aventura que duraria tantos invernos. Não relatarei seus acasos nem tratarei de recordar a ordem cabal de suas circunstâncias. Fui remador, mercador de escravos, escravo, lenhador, salteador de caravanas, cantor, catador de águas fundas e de metais. Padeci cativeiro durante um ano nas minas de mercúrio, que afrouxam os dentes. Militei ...com homens da Suécia na guarda de Mekligarthr (Constantinopla). Às margens do Azov, uma mulher que não esquecerei me quis; deixei-a ou ela me deixou, o que dá no mesmo. Fui atraiçoado e atraiçoei. Mais de uma vez o destino me fez matar. Um soldado grego me desafiou e me deu a escolha de duas espadas. Uma era maior um palmo que a outra. Compreendi que tentava me intimidar e escolhi a mais curta. Perguntou-me por quê. Respondi-lhe que de meu punho a seu coração a distância era igual. Em uma margem do Mar Negro está o epitáfio rúnico que gravei para meu companheiro Lelf Arnarson. Combati os sarracenos com os Homens Azuis de Serkland. No curso do tempo fui muitos, mas esse torvelinho foi um longo sonho. O essencial era a Palavra. Uma ou outra vez desacreditei dela. Repeti para mim que renunciar ao belo jogo de combinar palavras belas era insensato e que não há por que indagar sobre uma só, talvez ilusória. Esse raciocínio foi vão. Um missionário me propôs a palavra Deus que rechacei. Em certa aurora, à beira de um rio que se ampliava em um mar, acreditei haver dado com a revelação."

Do conto Undr

Um comentário:

Pedro Elefante disse...

muito bom! Vou procurar o texto integral.