quarta-feira, 27 de abril de 2011

Mordred - por Cesar Alcázar

O som do choque entre as espadas e os escudos soa como a mais bela canção para meus ouvidos. Mal posso esperar para que gritos de dor e morte preencham o ar como estridentes acordes do carnyx. A névoa encobre o campo de batalha, enchendo o meu coração com o poder da deusa mãe. A atmosfera é tensa, mas apesar disso, um sorriso domina a minha face.

Luto por amor e prazer, nunca pelo dever. Do outro lado deste futuro palco de violência, uma horda quer inundar o mundo de culpa, vergonha e tristeza. São os desígnios do Senhor, dizem eles. Pouco conheço sobre esta opressiva doutrina. Sei apenas que os meus deuses não pedem para que eu me ajoelhe, pedem apenas para celebrar tudo o que os meus oponentes resolveram chamar de pecado.

À frente desta horda inimiga está meu pai, o rei. Meio-irmão de minha mãe. O homem que trocou o estandarte do Dragão pela cruz. Ele pode ter expulsado os malditos saxões de nossa pequena ilha no passado, entretanto, agora quer invadi-la com esta nova religião dos romanos.

Vivemos imersos em outros tempos. Tudo mudou. Não reconheço a terra das histórias de minha mãe. Não reconheço o mundo no qual cresci.

O renascimento da primavera, celebrado com regozijo e rituais de fertilidade, agora é motivo de reclusão e melancolia. Durante o solstício de inverno, época em que as bebidas já estavam fermentadas e o cultivo do solo tinha uma pausa, nos embriagávamos e sacrificávamos o gado. Hoje as pessoas cantam músicas deprimentes em templos que chamam de igreja. As mulheres já não podem mais escolher os seus amantes e foram relegadas a uma vida de servidão. Sem contar as que são enclausuradas naquelas prisões de adoração longe do toque de qualquer homem, como aconteceu com a rainha depois que a seduzi.

Fui concebido para que os velhos costumes não morressem sob a sombra da cruz. Por isso estou aqui, esperando para que a batalha comece e defina o nosso destino. Mais do que o encontro de dois exércitos, este é um confronto de deuses. Das cinzas deste combate nascerá uma nova era, seja qual for o seu resultado.

Do outro lado da planície, o rei exclama:

– Filho! Usurpaste meu reino durante a minha ausência! Usurpaste minha rainha! Todavia, estou disposto a te indultar, se reconheceres a minha supremacia e te retratares perante o Senhor.

Uma risada cheia de escárnio é o início da minha resposta. Em seguida, mando uma pequena, e bem humorada, provocação:

– A tua rainha não me parecia muito usurpada ontem à noite! Pelo contrário, ela estava bem à vontade!

Meus guerreiros gargalham em uníssono e trocam obscenidades com o exército opositor. Afrontado diante de tamanha algazarra, o rei continua:

– Traidor! Cria da feitiçaria!

– Traidor? Eu? Não fui eu quem abandonou as antigas tradições! Não sou eu quem está jogando fora o legado de nossos ancestrais e substituindo-o pelas leis destes fracos e chorões! E então, grandioso rei, quem é o traidor aqui?

Os homens que me apóiam vibram com esta resposta. Exaltados pela proximidade da luta, eles erguem as espadas no ar e lançam gritos aterrorizantes. Meu coração dispara como se um cavalo galopasse dentro de meu peito. Ouço o rei invocar os seus combatentes à batalha, mas não presto atenção nas palavras. Ao meu sinal, selvagens guerreiros põem-se à carga.

Dois exércitos cruzam o campo velozmente e se chocam, provocando o ensurdecedor ruído de mil trovões. Espadas brilham sob as últimas luzes do entardecer, que dão ao sangue uma coloração espectral. Sou tomado pelo furor da guerra e golpeio às cegas. Corto gargantas, decepo membros, delicio-me com a dança macabra de cabeças rodopiando no ar.

Homens, animais e armas se misturam nesta orgia de morte. Não é possível distinguir bons ou maus, heróis ou vilões, certos ou errados. Somos todos feras primordiais, criaturas da destruição. Isto está nos nossos corações, está em nossa alma. Assim fomos feitos e assim continuaremos até o fim dos dias. Não podemos negar a natureza e nos esconder por trás de uma falsa noção de bondade como fazem meus inimigos.

Sou acusado por meu pai de ser uma cria da feitiçaria. Ele jamais perdoará a sua irmã por ter me gerado. Era necessário que eu nascesse. Tenho uma missão. Outros não deverão sofrer como minha mãe. Quando eu ainda era muito jovem, ela já era perseguida. Como eles podem pregar o afeto e a benevolência se fazem exatamente o contrário? Certa vez perguntei à minha mãe o motivo de tal ódio. A resposta veio com um verso:

Olhos verdes, cabelos vermelhos,
Dentro de cada ser um receio!
Por saber de todos os caminhos negros
Andei entre os homens sem iguais.


A batalha segue atroz e impiedosa. Olho para todos os lados e vejo meus homens tombando às dezenas. Os inimigos lutam com ferocidade exemplar. Eles avançam inexoravelmente envoltos pela névoa, ceifando vidas em uma colheita mortal. A reputação do rei como grande guerreiro ainda é suficiente para inspirar tal bravura. Bardos embevecidos por toda a ilha cantam sobre como ele matou novecentos oponentes no último duelo contra os saxões.

O segundo em comando de minha legião me intercepta aos gritos:

– Meu Senhor, temos que recuar. As fileiras foram rompidas e os homens se espalharam. Seremos massacrados!

– Fujam se quiserem, covardes! Eu irei até o fim!

Vejo em minha mente as imagens de histórias que eu costumava ouvir e idealizar quando criança. Histórias narradas por minha mãe sobre a grande rainha guerreira dos Icenos que liderou uma fantástica rebelião contra os romanos. Terei eu o mesmo destino dela e perecerei diante do mal?

Ao longe, observo o rei abrir caminho até mim como um lenhador derruba árvores na sua trilha. Os olhos dele, mesmo à distância, miram os meus. Posso sentir toda a consternação daquele olhar. Contudo, não há ódio nele, apenas dor. O senhor é uma figura contraditória, meu pai! Como pode não me odiar? Talvez eu te admirasse se pudesse ver ódio na tua face.

Clarões à minha frente confundem os meus movimentos. O brilho das espadas ofusca a visão. Os gritos e o clamor do metal ferem meus ouvidos. Tudo parece andar lentamente. Procuro pelos meus guerreiros, sem encontrá-los. Avisto apenas pilhas de corpos pelo chão. Estou sozinho no círculo de fogo. Fui ferido.

– Te saíste muito bem, meu rapaz! – ouço a doce voz de minha mãe.

– Mãe, eu falhei! Não consegui derrotá-lo!

– Esta é a lei da natureza. Nem sempre quem está do lado da razão consegue vencer. O mundo está tomando um rumo que ele mesmo escolheu. Não podemos lutar contra ele.
Meu exército está arruinado. Em meio ao caos do confronto, me vejo frente a frente com meu pai. O mundo silencia ao nosso encontro. Repentinamente, nada mais existe à nossa volta. Hesito por um instante...

O rei trespassa meu peito com sua lança até chegar bem próximo de mim. Olhando nos olhos dele, cravo minha espada no seu pescoço. O sangue jorra como uma maravilhosa fonte de vermelho vivo. Então, nos unimos em um abraço de morte banhados pela luz rubra do pôr-do-sol. Enquanto agonizamos juntos, como nunca estivemos antes, ele me diz:

– Filho, perdoa teu pai...

– Ah, meu pai! – respondo – Sempre tão nobre. Rex quondam, Rexque Futurus*!

Um novo mundo nascerá no horizonte quando a luz da aurora banhar este sombrio campo de batalha. Felizmente, eu não o verei. Tenho pena dos que estão por vir, dos que nascerão nas próximas gerações. Pois a era do riso, do prazer e da alegria morre comigo esta noite.



*Outrora rei, futuro rei.


Publicado pela primeira vez na antologia "No mundo dos Cavaleiros e Dragões". Organização de Ademir Pascale. Editora All Print, 2010.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Convite Sagas Estranho Oeste



O segundo volume da série Sagas, Estranho Oeste, já tem data e local de lançamento! Será no dia 7 de Maio, sábado, no Zelig Bar. Mais informações em breve.



Feiticeiros, mortos-vivos, espíritos ancestrais! Aventure-se através de desertos misteriosos e cidades fantasmagóricas no segundo volume da série Sagas. Estranho Oeste apresenta cinco histórias arrepiantes, escritas por alguns dos melhores autores da Literatura Fantástica brasileira. As trilhas selvagens do Velho Oeste nunca mais serão as mesmas!


Bisão do Sol Poente Duda Falcão


Aproveite o Dia Christian David


Alícia Azevedo


Justiça… Vivo ou Morto! M. D. Amado


The Gun, the Evil and the Death Wilson Vieira


Prefácio Thomaz Albornoz



Ilustração Fred Macêdo

terça-feira, 12 de abril de 2011

Lançamento Sagas Vol. 2 Estranho Oeste em Porto Alegre

O segundo volume da série Sagas, Estranho Oeste, já tem data e local de lançamento! Será no dia 7 de Maio, sábado, no Zelig Bar. Mais informações em breve.