quinta-feira, 10 de março de 2011

O Cemitério de Elefantes - por Cesar Alcázar



O crepúsculo se anunciava, banhando de vermelho e amarelo a paisagem emoldurada pela grande vidraça na varanda. Sam gostava de sentar ali ao fim do dia para observar a chegada da escuridão. Apesar de amar aquele panorama rústico castigado pelo sol, também gostava de vê-lo ser consumido pelas trevas.

Abriu uma garrafa de Bourbon e encheu o copo. O líquido desceu pela garganta como se fosse água. Não lembrava há quanto tempo estava bebendo, e, na verdade, isso pouco importava. O silêncio na casa era completo. Ele até ouvira algumas músicas à tarde, mas não tivera paciência de trocar o disco.

Sam enchia o copo outra vez quando o telefone tocou. O barulho da campainha ecoou pela casa inteira. Ele caminhou sem vontade até o aparelho e atendeu a chamada. Do outro lado uma voz sinistra e bem conhecida fazia ameaças. A princípio, não entendeu bem do que se travava. No entanto, as últimas palavras foram bem claras. Logo, colocou o telefone de volta no gancho sem pronunciar uma sílaba sequer. Sam pensou que não havia muito a fazer além de esperar pelo filho da mãe. Se ele queria ir até lá para matá-lo, que o fizesse.

O velho Winchester estava, como de hábito, pendurado na parede. Era um autêntico Winchester, um exemplar anterior à remodelação de 64. Sam pegou a arma e começou a inserir os cartuchos. Com a arma devidamente carregada, voltou a sentar na poltrona diante da vidraça. Ele então encheu mais um copo, que bebeu de uma vez só. A arma em suas mãos provocava uma sensação estranha. Por um instante, a imagem de Ernest Hemingway passou pela sua cabeça. Olhou para o lado e disparou o rifle contra o espelho.

Lágrimas correram de seus olhos, porém, ele as secou com a manga em seguida. Se ao menos não estivesse sozinho. Não era medo, nem mesmo ficara nervoso com a ameaça. Para falar a verdade, ele tinha medo. Não do homem que fizera ameaças por telefone, e sim, do homem refletido no espelho antes do tiro.

Sam levantou e foi buscar o telefone, que largou sobre a mesinha ao lado da poltrona. Ele refletiu alguns minutos. Então, deitou o rifle carregado sobre as pernas e discou. Não demorou muito para que atendessem:

– Alô?

– Olá, Warren. É o Sam.

– Ah, olá, Sam! Tudo bem com você?

– Você poderia vir até aqui? Acabei de receber uma ligação estranha. O Al disse que está vindo para cá e que vai me matar.

– Está falando sério?

– Bem, acho que o desgraçado está bêbado, mas pode ser sério. Estou com o meu rifle aqui no colo e não gostaria de ficar sozinho com ele.

– Ok, Sam. Fique tranqüilo. Estou a caminho…

Sam colocou o telefone de volta no gancho e ficou observando os últimos raios de sol caírem sobre o vale. Não sentiu o tempo passar. As luzes do carro de Warren logo apareceram no horizonte. O amigo entrou na casa e Sam não perdeu tempo:

– Olá, Warren. Pegue um copo e vá sentando...

– Que diabos está acontecendo?

– Parece que o Al não gostou da montagem final do filme. Ele acha que eu o prejudiquei.

– Mas o corte final não seria responsabilidade do Steve?

– E o idiota deve estar ligando para isso? Além do mais, não sou de me esquivar de um conflito. Você não pode ter drama sem conflito.

– Me parece que você tem arranjado bastante conflito ultimamente. Ás vezes acho que você quer é se destruir.

– Olha aqui, Warren: Eu chamei você por que ninguém mais me agüenta. Mas, desse jeito, eu é que não vou aguentar você.

– Tudo bem, tudo bem. Não está mais aqui quem falou!

– Isso é tudo culpa daqueles executivos veados! Eu entendo do que faço! Não parece suficiente para eles. Dão para qualquer babaca o poder de decisão enquanto o diretor coloca o cheque no bolso e vai para casa. Outro dia o Steve me jogou uma garrafa...

– Acertou?

– Não. Mas desperdiçou um bom champanhe! É o que dá fazer filme por dinheiro. Eu precisava de um sucesso, Steve precisava de um sucesso. Mas, que inferno! Não é assim que eu trabalho!

– Sei, sei. E Joie, onde está?

– Faz alguma diferença?

– Você não casou com ela uns três meses atrás lá no México?

– Muitas vezes não lembro o que fiz no México. A maldita tequila, você sabe.

Os dois homens ficaram bebendo em silêncio por alguns minutos. Entretanto, não era um silêncio constrangedor. A pergunta poderia ter sido indiscreta e a resposta um tanto mal humorada, mas nada disso importava para amigos como eles. Permaneceram assim até que Sam falou:

– Joie voltou para Londres. Ela pediu o divórcio... O que você acha disso?

Warren nada respondeu. Olhou para o amigo e sua expressão disse tudo o que era preciso.

– Já fiz muitas besteiras no México, Warren. Algumas coisas boas também.

– Lembra de quando você pegou umas moças no bordel de Parras para fazer aquela cena comigo e com o Ben só para dizer que a Warner tinha pago prostitutas para o filme?

As gargalhadas estremeceram a casa escura. Warren continuou, depois de quase perder o fôlego:

– Talvez fosse melhor fazer uma visita ao México. Você ama mesmo aquele lugar, não é?

– Deve ser por que lá eu tenho a ilusão de que o tempo dos homens livres ainda não acabou. É um país lindo, não sei como descrever exatamente. O México é uma sensação, uma paixão... Um santuário. Sempre voltarei ao México. Quem sabe um dia eu vá até lá procurar por um cemitério de elefantes.

Sam passou a mão pelos cabelos grisalhos, que já estavam ficando escassos, e suspirou. As paisagens fantásticas dos desertos de Chihuahua e das montanhas de Sierra Madre povoavam sua mente. Nas livres pradarias da imaginação, homens impiedosos como o deserto e imponentes como as montanhas cavalgavam a eternidade dos sonhos. Homens que não existiam mais, de uma era que desaparecera nas areias do tempo.

Entre uma bebida e outra a madrugada transformou-se em dia outra vez. A luz tímida matinal invadiu a sala onde os dois homens conversavam como se o mundo lá fora estivesse parado. No entanto, ainda lembravam o motivo que os reunira de forma tão abrupta no início da noite anterior. Warren sacudiu a garrafa para não desperdiçar as últimas gotas. Olhou para o relógio e só então percebeu quantas horas haviam passado desde sua chegada. Enfim, comentou:

– É... Parece que o Al não vem...

– O cretino deve ter caído em algum esgoto por aí.

– E agora?

– Bem, que tal abrirmos uma garrafa de conhaque?
Copyright 2011 Cesar Alcázar

3 comentários:

hqsubversiva disse...

Genial, meu amigo.

Octavius disse...

Muito legal Cesar,
Ótimo bate-papo.

Um abraço.

Cesar Almeida disse...

Obrigado, pessoal!