quarta-feira, 30 de março de 2011

Segredos - Participação na antologia "O mal bate à sua porta"

Agora consigo lembrar com clareza dos anos sombrios passados naquela casa em Calle San Martín. São inúmeras as memórias sufocadas dentro de minha mente por todo esse tempo. A mordaça psicológica que me calava por fim desapareceu. Sinto como se apenas hoje recebesse de volta um pedaço de mim que havia sido roubado.

Meu conto Segredos está na antologia digital O mal bate à sua porta.

Contos de Simone Sauressig, Cesar Alcázar, Duda Falcão, Luis Dill, Estevan Lutz e Flávia Côrtes. Organização de Christian David.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O Cemitério de Elefantes - por Cesar Alcázar



O crepúsculo se anunciava, banhando de vermelho e amarelo a paisagem emoldurada pela grande vidraça na varanda. Sam gostava de sentar ali ao fim do dia para observar a chegada da escuridão. Apesar de amar aquele panorama rústico castigado pelo sol, também gostava de vê-lo ser consumido pelas trevas.

Abriu uma garrafa de Bourbon e encheu o copo. O líquido desceu pela garganta como se fosse água. Não lembrava há quanto tempo estava bebendo, e, na verdade, isso pouco importava. O silêncio na casa era completo. Ele até ouvira algumas músicas à tarde, mas não tivera paciência de trocar o disco.

Sam enchia o copo outra vez quando o telefone tocou. O barulho da campainha ecoou pela casa inteira. Ele caminhou sem vontade até o aparelho e atendeu a chamada. Do outro lado uma voz sinistra e bem conhecida fazia ameaças. A princípio, não entendeu bem do que se travava. No entanto, as últimas palavras foram bem claras. Logo, colocou o telefone de volta no gancho sem pronunciar uma sílaba sequer. Sam pensou que não havia muito a fazer além de esperar pelo filho da mãe. Se ele queria ir até lá para matá-lo, que o fizesse.

O velho Winchester estava, como de hábito, pendurado na parede. Era um autêntico Winchester, um exemplar anterior à remodelação de 64. Sam pegou a arma e começou a inserir os cartuchos. Com a arma devidamente carregada, voltou a sentar na poltrona diante da vidraça. Ele então encheu mais um copo, que bebeu de uma vez só. A arma em suas mãos provocava uma sensação estranha. Por um instante, a imagem de Ernest Hemingway passou pela sua cabeça. Olhou para o lado e disparou o rifle contra o espelho.

Lágrimas correram de seus olhos, porém, ele as secou com a manga em seguida. Se ao menos não estivesse sozinho. Não era medo, nem mesmo ficara nervoso com a ameaça. Para falar a verdade, ele tinha medo. Não do homem que fizera ameaças por telefone, e sim, do homem refletido no espelho antes do tiro.

Sam levantou e foi buscar o telefone, que largou sobre a mesinha ao lado da poltrona. Ele refletiu alguns minutos. Então, deitou o rifle carregado sobre as pernas e discou. Não demorou muito para que atendessem:

– Alô?

– Olá, Warren. É o Sam.

– Ah, olá, Sam! Tudo bem com você?

– Você poderia vir até aqui? Acabei de receber uma ligação estranha. O Al disse que está vindo para cá e que vai me matar.

– Está falando sério?

– Bem, acho que o desgraçado está bêbado, mas pode ser sério. Estou com o meu rifle aqui no colo e não gostaria de ficar sozinho com ele.

– Ok, Sam. Fique tranqüilo. Estou a caminho…

Sam colocou o telefone de volta no gancho e ficou observando os últimos raios de sol caírem sobre o vale. Não sentiu o tempo passar. As luzes do carro de Warren logo apareceram no horizonte. O amigo entrou na casa e Sam não perdeu tempo:

– Olá, Warren. Pegue um copo e vá sentando...

– Que diabos está acontecendo?

– Parece que o Al não gostou da montagem final do filme. Ele acha que eu o prejudiquei.

– Mas o corte final não seria responsabilidade do Steve?

– E o idiota deve estar ligando para isso? Além do mais, não sou de me esquivar de um conflito. Você não pode ter drama sem conflito.

– Me parece que você tem arranjado bastante conflito ultimamente. Ás vezes acho que você quer é se destruir.

– Olha aqui, Warren: Eu chamei você por que ninguém mais me agüenta. Mas, desse jeito, eu é que não vou aguentar você.

– Tudo bem, tudo bem. Não está mais aqui quem falou!

– Isso é tudo culpa daqueles executivos veados! Eu entendo do que faço! Não parece suficiente para eles. Dão para qualquer babaca o poder de decisão enquanto o diretor coloca o cheque no bolso e vai para casa. Outro dia o Steve me jogou uma garrafa...

– Acertou?

– Não. Mas desperdiçou um bom champanhe! É o que dá fazer filme por dinheiro. Eu precisava de um sucesso, Steve precisava de um sucesso. Mas, que inferno! Não é assim que eu trabalho!

– Sei, sei. E Joie, onde está?

– Faz alguma diferença?

– Você não casou com ela uns três meses atrás lá no México?

– Muitas vezes não lembro o que fiz no México. A maldita tequila, você sabe.

Os dois homens ficaram bebendo em silêncio por alguns minutos. Entretanto, não era um silêncio constrangedor. A pergunta poderia ter sido indiscreta e a resposta um tanto mal humorada, mas nada disso importava para amigos como eles. Permaneceram assim até que Sam falou:

– Joie voltou para Londres. Ela pediu o divórcio... O que você acha disso?

Warren nada respondeu. Olhou para o amigo e sua expressão disse tudo o que era preciso.

– Já fiz muitas besteiras no México, Warren. Algumas coisas boas também.

– Lembra de quando você pegou umas moças no bordel de Parras para fazer aquela cena comigo e com o Ben só para dizer que a Warner tinha pago prostitutas para o filme?

As gargalhadas estremeceram a casa escura. Warren continuou, depois de quase perder o fôlego:

– Talvez fosse melhor fazer uma visita ao México. Você ama mesmo aquele lugar, não é?

– Deve ser por que lá eu tenho a ilusão de que o tempo dos homens livres ainda não acabou. É um país lindo, não sei como descrever exatamente. O México é uma sensação, uma paixão... Um santuário. Sempre voltarei ao México. Quem sabe um dia eu vá até lá procurar por um cemitério de elefantes.

Sam passou a mão pelos cabelos grisalhos, que já estavam ficando escassos, e suspirou. As paisagens fantásticas dos desertos de Chihuahua e das montanhas de Sierra Madre povoavam sua mente. Nas livres pradarias da imaginação, homens impiedosos como o deserto e imponentes como as montanhas cavalgavam a eternidade dos sonhos. Homens que não existiam mais, de uma era que desaparecera nas areias do tempo.

Entre uma bebida e outra a madrugada transformou-se em dia outra vez. A luz tímida matinal invadiu a sala onde os dois homens conversavam como se o mundo lá fora estivesse parado. No entanto, ainda lembravam o motivo que os reunira de forma tão abrupta no início da noite anterior. Warren sacudiu a garrafa para não desperdiçar as últimas gotas. Olhou para o relógio e só então percebeu quantas horas haviam passado desde sua chegada. Enfim, comentou:

– É... Parece que o Al não vem...

– O cretino deve ter caído em algum esgoto por aí.

– E agora?

– Bem, que tal abrirmos uma garrafa de conhaque?
Copyright 2011 Cesar Alcázar

segunda-feira, 7 de março de 2011

Caro editor...



1 - Caro editor, por que você continua devolvendo minhas histórias?

2 - Você deveria imprimí-las e me fazer rico e famoso.

3 - O que há com você?

quarta-feira, 2 de março de 2011

A melhor cantada dos Quadrinhos

Corto Maltese é um dos mais celebrados heróis a engrandecer as páginas das Histórias em Quadrinhos. Criado em 1967 pelo italiano Hugo Pratt, o pirata/mercenário/bon-vivant aventurou-se ao redor do mundo durante quase três décadas, deixando milhares de fãs extasiados com roteiros brilhantes e arte soberba.

Um belo exemplo desta arte pode ser encontrado nos últimos quadros de “A balada do mar salgado”, onde Corto dá uma cantada brilhante na bela Pandora, apenas para levar um fora monumental em seguida...

Pandora: Bom dia, Corto Maltese!

Corto: Ei! Você está muito bonita! Me faz lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré ‘Parda Flora’, em Buenos Aires.

Pandora: De certo havia lá alguma parecida comigo?

Corto: Não. É precisamente por você não se parecer com ninguém que gostaria de encontrá-la sempre… em toda a parte…