segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ernie e Russ - por Cesar Alcázar

O salão do Le Sphinx fervilhava com soldados, aventureiros e jornalistas. Todos comemoravam a recente libertação de Paris pela Résistance e pelos americanos da 4ª Divisão de Infantaria. Havia celebração em cada canto, e as prostitutas faturavam como nunca. A cidade era uma festa.

Cercado por oficiais e repórteres, um correspondente de guerra narrava de forma vibrante suas arriscadas experiências nos campos de batalha. O notável jornalista era também escritor de sucesso, um extraordinário contador de histórias. No entanto, já se cansava de entreter os militares e suas mentes simplórias.

Em meio às perguntas embriagadas, ele avistou um rapaz que bebia a sós na mesa escura do outro lado da sala. O semblante do jovem soldado possuía um ar de sagacidade e deboche que agradava o escritor. Pensando que aquele sujeito seria uma companhia mais interessante do que a que dispunha no momento, pediu licença aos demais e foi até ele.

– Posso sentar aqui? – perguntou ao rapaz enquanto puxava a cadeira e jogava um beijo para Camille, a prostituta que o recebera horas antes.

O jovem, por sua vez, reconheceu de imediato quem lhe dirigia a palavra e ficou sem saber o que dizer.

– Qual é o seu nome, soldado?

– Russell Albion Meyer, da 166th Signal Photo Company, senhor. Mas todo mundo me chama de Russ.

– Senhor? Por acaso tenho cara de militar? Ernie está bom.

O jovem cameraman sorriu com a inesperada informalidade do ilustre correspondente, que continuou:

– Você parece bem jovem, quantos anos tem?

– Completei vinte e dois em Março.

– Esteve no desembarque em Omaha Beach, correto?

– Sim, as imagens que fiz irão para o cine-jornal.

– Foi uma luta terrível. É preciso muita coragem para participar de uma coisa daquelas. Ainda mais desarmado.

– A câmera é minha arma – Russ contestou em tom espirituoso – e acho que não tive muita escolha.

– Como a pena do escritor, não é mesmo? Sempre mais forte do que a espada. E, também na escrita, não temos escolha. É escrever ou enlouquecer.

Os dois riram e sorveram longos goles de suas cervejas.

– Está se divertido, Russ?

– Bastante, senhor.

Ernie olhou para Russ com a sobrancelha direita erguida, em sinal de reprovação. O jovem percebeu no mesmo instante e corrigiu:

– Ah! Desculpe. Ernie...

– E então, qual delas você vai escolher? – Ernie gesticulou na direção das belas mulheres que alegravam os presentes.

– Infelizmente, não tenho dinheiro para isso.

– Depois de tudo que você passou? Além do mais, deve fazer um tempão que você não tem uma mulher por causa dessa guerra.

– Na verdade... Bem, como posso dizer... Eu nunca estive com uma mulher antes.

– Você está brincando?

– Não. É que... Talvez não seja certo, e além do mais, nunca tive a oportunidade.

O escritor ficou estupefato. Ele bebeu o que restava de sua cerveja em um gole só e falou:

– Quando se vai para a guerra ainda garoto, você tem uma grande ilusão de imortalidade. Outras pessoas são mortas, você não... Então, quando você está gravemente ferido pela primeira vez, você perde essa ilusão e sabe que pode acontecer com você. Pelo que posso observar, você ainda tem essa ilusão. A vida pode ser muito curta, rapaz. Por isso quero que você escolha a mulher que quiser aqui. Eu pago. Nem pense em recusar! Não há nada de errado nisso. Não sei como foi a sua criação, mas aposto que protegeram você demais. Esqueça tudo o que ensinaram sobre conceitos morais, pecado e essas outras bobagens. Não há nada de errado em viver. E aproveitar a vida é a única coisa decente que podemos fazer.

Russ ficou um pouco surpreso. Chegou a pensar que o jornalista estivesse brincando. Ernie logo exclamou:

– Vamos lá, escolha!

O rapaz olhou à sua volta e seus olhos se fixaram em uma belíssima morena italiana, de pernas fortes e seios fartos.

– Tome esses dólares, serão suficientes. Agora vá até lá e convide-a para subir!

Com um sorriso que era um misto de alegria e apreensão, Russ agradeceu e caminhou até a moça. Em seguida, os dois desapareceram do salão.

– Preparado para a guerra, despreparado para a vida. Exatamente como eu na Itália. – Ernie pensou em voz alta.

O Tenente Baldry, que ouvira a conversa o tempo inteiro, se aproximou do escritor e disse:

– Aprecio o que acabou de fazer pelo rapaz, Mr. Hemingway.

– Gostei dele. É um homem inteligente. Acho que terá um belo futuro agora.



Ernest Hemingway encontra Russ Meyer, por Cesar Alcázar (baseado em uma história real)

4 comentários:

Leonardo disse...

Excelente! Grande sacada.
Eu gosto muito de pensar onde foi o ponto que a vida deu a virada... Que acontecimento pode ter sido definitivo para que as pessoas se tornassem quem são. Essa é um bela hipótese.
Tu tá cada escrevendo vez melhor.
Um abraço,
Leonardo

osvaldo neto disse...

Que beleza, César! Já iniciei o compartilhamento, abraços. :)

Octavius disse...

Muito legal Cesar,
Parabéns!!

Um abraço.

Cesar Almeida disse...

Fala, meu velho! Obrigado pelo comentário! Toda vez que eu ouvia a expressão "momento que definiu a carreira..." eu lembrava desse encontro entre o Meyer e o Hemingway. Então eu resolvi imaginar qual teria sido a motivação do Hemingway ao pagar a prostituta para o Meyer, o que afetou profundamente a vida do futuro cineasta (e fotógrafo da Playboy, he, he...)


Meus caros amigos Osvaldo e Octavius, muito obrigado! Fico muito feliz que tenham gostado dessa história.

Grande abraço!