domingo, 18 de dezembro de 2011

O Conan de Jorge Luis Borges busca pela Palavra :)

"Assim teve início a aventura que duraria tantos invernos. Não relatarei seus acasos nem tratarei de recordar a ordem cabal de suas circunstâncias. Fui remador, mercador de escravos, escravo, lenhador, salteador de caravanas, cantor, catador de águas fundas e de metais. Padeci cativeiro durante um ano nas minas de mercúrio, que afrouxam os dentes. Militei ...com homens da Suécia na guarda de Mekligarthr (Constantinopla). Às margens do Azov, uma mulher que não esquecerei me quis; deixei-a ou ela me deixou, o que dá no mesmo. Fui atraiçoado e atraiçoei. Mais de uma vez o destino me fez matar. Um soldado grego me desafiou e me deu a escolha de duas espadas. Uma era maior um palmo que a outra. Compreendi que tentava me intimidar e escolhi a mais curta. Perguntou-me por quê. Respondi-lhe que de meu punho a seu coração a distância era igual. Em uma margem do Mar Negro está o epitáfio rúnico que gravei para meu companheiro Lelf Arnarson. Combati os sarracenos com os Homens Azuis de Serkland. No curso do tempo fui muitos, mas esse torvelinho foi um longo sonho. O essencial era a Palavra. Uma ou outra vez desacreditei dela. Repeti para mim que renunciar ao belo jogo de combinar palavras belas era insensato e que não há por que indagar sobre uma só, talvez ilusória. Esse raciocínio foi vão. Um missionário me propôs a palavra Deus que rechacei. Em certa aurora, à beira de um rio que se ampliava em um mar, acreditei haver dado com a revelação."

Do conto Undr

domingo, 23 de outubro de 2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Minha participação na 57ª Feira do Livro de Porto Alegre

Olá, pessoal! Participarei de alguns eventos na próxima Feira do Livro de Porto Alegre. Eu gostaria muito de contar com a presença dos amigos. Grande abraço!

“Fantasia heróica - das revistas pulp ao novo panorama da literatura nacional”
Bate papo com Cesar Alcázar, Duda Falcão e Christopher Kastensmidt.
Dia 31 de outubro (segunda-feira), às 18h30 na Sala Leste do Santander Cultural
Depois, sessão de autógrafos do livro da Argonautas Editora Sagas Vol. 3 Martelo das Bruxas com Duda e Christopher a partir das 20h30 – Praça Central.

Palestra “O terror na Literatura”
Com Cesar Alcázar e Duda Falcão
Dia 10 de novembro (quinta-feira), às 14h00 na Casa do Pensamento, espaço do público jovem na Feira do Livro.

Lançamento e sessão de autógrafos do livro "Vida é jogo! Ensaios de História, Cinema e Esporte”
Dia 12 de Novembro (sábado), às 20h30 no Memorial do Rio Grande do Sul
Participo desse livro com um texto sobre o filme Rollerball – Gladiadores do Futuro.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Elogios para o "Cão Negro"



Lágrimas do Anjo da Morte, história de minha autoria que está no livro Sagas Vol. 1 Espada e Magia, tem recebido boas críticas no cenário da Literatura Fantástica nacional. Parece que o personagem Anrath, o Cão Negro de Clontarf, está agradando. Aqui estão alguns comentários:

Tânia Souza, do blog LitFan, destacou:

Anrath é um personagem que, ainda que letal, apresenta um olhar reflexivo sobre seu lugar em um mundo no qual sua existência sempre fora marcada por batalhas sangrentas. Nessa noveleta, que também apresenta alguns elementos do folclore irlandês, há certa melancolia que gostei muito, claro, sem perder o foco na ação.

O escritor Marcelo Augusto Galvão, do blog Galvanizado, comentou:

Cesar Alcázar abre o volume com "Lágrimas do Anjo da Morte", uma história que se passa na Irlanda medieval que, apesar da presença do cristianismo, ainda tem influência da mitologia celta. O personagem principal é Anrath, mercenário perturbado pelo seu passado de lutas e que tem a vida salva por uma banshee, criatura do folclore irlandês, após ser traído pelo seu empregador. Além da instigante ambientação, outro ponto forte do conto é a narrativa movimentada.

Por fim, o escritor Tibor Moricz (É só outro Blog) elogia, mas aponta um deslize:

Narrativa firme e segura de Cesar Alcázar mostra a luta de um guerreiro que apesar de ansiar mais do que tudo abandonar a espada e as guerras, não consegue se livrar disso. Embora leve, o aprofundamento do personagem, que luta com conflitos internos, deixa o conto ainda melhor.
Encontrei a expressão “bucaneiro viking” e ela me pareceu deslocada, anacrônica. O termo bucaneiro começou a ser usado em princípio do século XV e os Viking atuavam nos séculos VIII ao XI. BOM

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Faroeste Gaúcho

PORTO ALEGRE, SÁBADO, 7 DE MAIO DE 2011

São Luiz, 6 - Já se conhecem os pormenores sobre o assalto que um grupo de malfeitores, chefiados pelo bandido Viriato, fez em Uruquá. Viriato extorquiu cerca de 4:000$000. Tambem inutilisou e espalhou pelo campo documentos no valor de 40:000$000. O estancieiro saqueado é homem abastado e de bons costumes, e sempre está trabalhando, desde pela manhã até á noite, apezar de possuir tres leguas de campo. Consta que a quadrilha ainda se conserva neste municipio, ignorando-se, porém, o seu paradeiro.

PORTO ALEGRE, SÁBADO, 28 DE MAIO DE 2011

São Luiz, 27 - As autoridades policiaes deste municipio continuam tentando capturar o bandido Viriato. Consta ter havido cisão entre os bandidos, sendo assassinados o ex-sargento do exército Feijó, que há tempos desertou, após tentar a sublevação do 4 regimento de infantaria.

PORTO ALEGRE, SÁBADO, 11 DE JUNHO DE 2011

Consoante communicação recebida pelo dr. Vasco Bandeira, chefe de policia, o celebre bandido Viriato e um seu filho foram corridos pela policia argentina da cidade de Alvear.
Transpondo o arroio Guapehy, aquelles individuos tomaram o rumo de La Cruz.
As autoridades de Itaquy e de Uruguayana tomaram providencias, no sentido de captural-os.

PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 30 DE JUNHO DE 2011

Segundo communicação recebida pelo dr. Vasco Bandeira, chefe de policia, o celebre bandido Viriato, sendo perseguido pelo delegado de Uruguayana, dr. Amantino Fagundes, transpoz um rio, em direcção á ilha de Japejú, na Republica do Uruguay.

PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 20 DE JULHO DE 2011

Morte do bandido Viriato - Transmittido de Alvear, provincia de Corrientes, na Republica Argentina, recebemos, hontem, o seguinte telegramma, do general Salvador Pinheiro Machado: "Alvear (Corrientes, 19) Foram, hontem, mortos, no departamento de Libres, o bandido Viriato e seu filho. - Saudações. - Salvador Pinheiro.

Fonte: Há um século no Correio do Povo

sábado, 21 de maio de 2011

Na estante

O mestre Robert E. Howard e seus seguidores.


Empilhando livros.


Quadrinhos.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Lançamento Estranho Oeste em Florianópolis!

Olá, pessoal!

Gostaria de convidá-los para a sessão de autógrafos em Florianópolis do nosso livro Sagas Vol. 2 Estranho Oeste, cujo lançamento em terras catarinenes será em conjunto com a antologia Cursed City, realizada pela editora Etronho.

O evento ocorrerá no dia 28 de maio, um sábado, a partir das 17h no Café Cultura.
http://www.cafeculturafloripa.com.br/home.html

Duda Falcão e eu (Cesar Alcázar) estaremos presentes para autografar o Sagas 2.
Ainda aguardamos a confirmação da presença de M. D. Amado (Editora Estronho).

Romeu Martins autografará o Cursed City.

Segue abaixo o pôster de divulgação do evento que o Romeu Martins está organizando:
Um abraço!

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Mordred - por Cesar Alcázar

O som do choque entre as espadas e os escudos soa como a mais bela canção para meus ouvidos. Mal posso esperar para que gritos de dor e morte preencham o ar como estridentes acordes do carnyx. A névoa encobre o campo de batalha, enchendo o meu coração com o poder da deusa mãe. A atmosfera é tensa, mas apesar disso, um sorriso domina a minha face.

Luto por amor e prazer, nunca pelo dever. Do outro lado deste futuro palco de violência, uma horda quer inundar o mundo de culpa, vergonha e tristeza. São os desígnios do Senhor, dizem eles. Pouco conheço sobre esta opressiva doutrina. Sei apenas que os meus deuses não pedem para que eu me ajoelhe, pedem apenas para celebrar tudo o que os meus oponentes resolveram chamar de pecado.

À frente desta horda inimiga está meu pai, o rei. Meio-irmão de minha mãe. O homem que trocou o estandarte do Dragão pela cruz. Ele pode ter expulsado os malditos saxões de nossa pequena ilha no passado, entretanto, agora quer invadi-la com esta nova religião dos romanos.

Vivemos imersos em outros tempos. Tudo mudou. Não reconheço a terra das histórias de minha mãe. Não reconheço o mundo no qual cresci.

O renascimento da primavera, celebrado com regozijo e rituais de fertilidade, agora é motivo de reclusão e melancolia. Durante o solstício de inverno, época em que as bebidas já estavam fermentadas e o cultivo do solo tinha uma pausa, nos embriagávamos e sacrificávamos o gado. Hoje as pessoas cantam músicas deprimentes em templos que chamam de igreja. As mulheres já não podem mais escolher os seus amantes e foram relegadas a uma vida de servidão. Sem contar as que são enclausuradas naquelas prisões de adoração longe do toque de qualquer homem, como aconteceu com a rainha depois que a seduzi.

Fui concebido para que os velhos costumes não morressem sob a sombra da cruz. Por isso estou aqui, esperando para que a batalha comece e defina o nosso destino. Mais do que o encontro de dois exércitos, este é um confronto de deuses. Das cinzas deste combate nascerá uma nova era, seja qual for o seu resultado.

Do outro lado da planície, o rei exclama:

– Filho! Usurpaste meu reino durante a minha ausência! Usurpaste minha rainha! Todavia, estou disposto a te indultar, se reconheceres a minha supremacia e te retratares perante o Senhor.

Uma risada cheia de escárnio é o início da minha resposta. Em seguida, mando uma pequena, e bem humorada, provocação:

– A tua rainha não me parecia muito usurpada ontem à noite! Pelo contrário, ela estava bem à vontade!

Meus guerreiros gargalham em uníssono e trocam obscenidades com o exército opositor. Afrontado diante de tamanha algazarra, o rei continua:

– Traidor! Cria da feitiçaria!

– Traidor? Eu? Não fui eu quem abandonou as antigas tradições! Não sou eu quem está jogando fora o legado de nossos ancestrais e substituindo-o pelas leis destes fracos e chorões! E então, grandioso rei, quem é o traidor aqui?

Os homens que me apóiam vibram com esta resposta. Exaltados pela proximidade da luta, eles erguem as espadas no ar e lançam gritos aterrorizantes. Meu coração dispara como se um cavalo galopasse dentro de meu peito. Ouço o rei invocar os seus combatentes à batalha, mas não presto atenção nas palavras. Ao meu sinal, selvagens guerreiros põem-se à carga.

Dois exércitos cruzam o campo velozmente e se chocam, provocando o ensurdecedor ruído de mil trovões. Espadas brilham sob as últimas luzes do entardecer, que dão ao sangue uma coloração espectral. Sou tomado pelo furor da guerra e golpeio às cegas. Corto gargantas, decepo membros, delicio-me com a dança macabra de cabeças rodopiando no ar.

Homens, animais e armas se misturam nesta orgia de morte. Não é possível distinguir bons ou maus, heróis ou vilões, certos ou errados. Somos todos feras primordiais, criaturas da destruição. Isto está nos nossos corações, está em nossa alma. Assim fomos feitos e assim continuaremos até o fim dos dias. Não podemos negar a natureza e nos esconder por trás de uma falsa noção de bondade como fazem meus inimigos.

Sou acusado por meu pai de ser uma cria da feitiçaria. Ele jamais perdoará a sua irmã por ter me gerado. Era necessário que eu nascesse. Tenho uma missão. Outros não deverão sofrer como minha mãe. Quando eu ainda era muito jovem, ela já era perseguida. Como eles podem pregar o afeto e a benevolência se fazem exatamente o contrário? Certa vez perguntei à minha mãe o motivo de tal ódio. A resposta veio com um verso:

Olhos verdes, cabelos vermelhos,
Dentro de cada ser um receio!
Por saber de todos os caminhos negros
Andei entre os homens sem iguais.


A batalha segue atroz e impiedosa. Olho para todos os lados e vejo meus homens tombando às dezenas. Os inimigos lutam com ferocidade exemplar. Eles avançam inexoravelmente envoltos pela névoa, ceifando vidas em uma colheita mortal. A reputação do rei como grande guerreiro ainda é suficiente para inspirar tal bravura. Bardos embevecidos por toda a ilha cantam sobre como ele matou novecentos oponentes no último duelo contra os saxões.

O segundo em comando de minha legião me intercepta aos gritos:

– Meu Senhor, temos que recuar. As fileiras foram rompidas e os homens se espalharam. Seremos massacrados!

– Fujam se quiserem, covardes! Eu irei até o fim!

Vejo em minha mente as imagens de histórias que eu costumava ouvir e idealizar quando criança. Histórias narradas por minha mãe sobre a grande rainha guerreira dos Icenos que liderou uma fantástica rebelião contra os romanos. Terei eu o mesmo destino dela e perecerei diante do mal?

Ao longe, observo o rei abrir caminho até mim como um lenhador derruba árvores na sua trilha. Os olhos dele, mesmo à distância, miram os meus. Posso sentir toda a consternação daquele olhar. Contudo, não há ódio nele, apenas dor. O senhor é uma figura contraditória, meu pai! Como pode não me odiar? Talvez eu te admirasse se pudesse ver ódio na tua face.

Clarões à minha frente confundem os meus movimentos. O brilho das espadas ofusca a visão. Os gritos e o clamor do metal ferem meus ouvidos. Tudo parece andar lentamente. Procuro pelos meus guerreiros, sem encontrá-los. Avisto apenas pilhas de corpos pelo chão. Estou sozinho no círculo de fogo. Fui ferido.

– Te saíste muito bem, meu rapaz! – ouço a doce voz de minha mãe.

– Mãe, eu falhei! Não consegui derrotá-lo!

– Esta é a lei da natureza. Nem sempre quem está do lado da razão consegue vencer. O mundo está tomando um rumo que ele mesmo escolheu. Não podemos lutar contra ele.
Meu exército está arruinado. Em meio ao caos do confronto, me vejo frente a frente com meu pai. O mundo silencia ao nosso encontro. Repentinamente, nada mais existe à nossa volta. Hesito por um instante...

O rei trespassa meu peito com sua lança até chegar bem próximo de mim. Olhando nos olhos dele, cravo minha espada no seu pescoço. O sangue jorra como uma maravilhosa fonte de vermelho vivo. Então, nos unimos em um abraço de morte banhados pela luz rubra do pôr-do-sol. Enquanto agonizamos juntos, como nunca estivemos antes, ele me diz:

– Filho, perdoa teu pai...

– Ah, meu pai! – respondo – Sempre tão nobre. Rex quondam, Rexque Futurus*!

Um novo mundo nascerá no horizonte quando a luz da aurora banhar este sombrio campo de batalha. Felizmente, eu não o verei. Tenho pena dos que estão por vir, dos que nascerão nas próximas gerações. Pois a era do riso, do prazer e da alegria morre comigo esta noite.



*Outrora rei, futuro rei.


Publicado pela primeira vez na antologia "No mundo dos Cavaleiros e Dragões". Organização de Ademir Pascale. Editora All Print, 2010.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Convite Sagas Estranho Oeste



O segundo volume da série Sagas, Estranho Oeste, já tem data e local de lançamento! Será no dia 7 de Maio, sábado, no Zelig Bar. Mais informações em breve.



Feiticeiros, mortos-vivos, espíritos ancestrais! Aventure-se através de desertos misteriosos e cidades fantasmagóricas no segundo volume da série Sagas. Estranho Oeste apresenta cinco histórias arrepiantes, escritas por alguns dos melhores autores da Literatura Fantástica brasileira. As trilhas selvagens do Velho Oeste nunca mais serão as mesmas!


Bisão do Sol Poente Duda Falcão


Aproveite o Dia Christian David


Alícia Azevedo


Justiça… Vivo ou Morto! M. D. Amado


The Gun, the Evil and the Death Wilson Vieira


Prefácio Thomaz Albornoz



Ilustração Fred Macêdo

terça-feira, 12 de abril de 2011

Lançamento Sagas Vol. 2 Estranho Oeste em Porto Alegre

O segundo volume da série Sagas, Estranho Oeste, já tem data e local de lançamento! Será no dia 7 de Maio, sábado, no Zelig Bar. Mais informações em breve.


quarta-feira, 30 de março de 2011

Segredos - Participação na antologia "O mal bate à sua porta"

Agora consigo lembrar com clareza dos anos sombrios passados naquela casa em Calle San Martín. São inúmeras as memórias sufocadas dentro de minha mente por todo esse tempo. A mordaça psicológica que me calava por fim desapareceu. Sinto como se apenas hoje recebesse de volta um pedaço de mim que havia sido roubado.

Meu conto Segredos está na antologia digital O mal bate à sua porta.

Contos de Simone Sauressig, Cesar Alcázar, Duda Falcão, Luis Dill, Estevan Lutz e Flávia Côrtes. Organização de Christian David.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O Cemitério de Elefantes - por Cesar Alcázar



O crepúsculo se anunciava, banhando de vermelho e amarelo a paisagem emoldurada pela grande vidraça na varanda. Sam gostava de sentar ali ao fim do dia para observar a chegada da escuridão. Apesar de amar aquele panorama rústico castigado pelo sol, também gostava de vê-lo ser consumido pelas trevas.

Abriu uma garrafa de Bourbon e encheu o copo. O líquido desceu pela garganta como se fosse água. Não lembrava há quanto tempo estava bebendo, e, na verdade, isso pouco importava. O silêncio na casa era completo. Ele até ouvira algumas músicas à tarde, mas não tivera paciência de trocar o disco.

Sam enchia o copo outra vez quando o telefone tocou. O barulho da campainha ecoou pela casa inteira. Ele caminhou sem vontade até o aparelho e atendeu a chamada. Do outro lado uma voz sinistra e bem conhecida fazia ameaças. A princípio, não entendeu bem do que se travava. No entanto, as últimas palavras foram bem claras. Logo, colocou o telefone de volta no gancho sem pronunciar uma sílaba sequer. Sam pensou que não havia muito a fazer além de esperar pelo filho da mãe. Se ele queria ir até lá para matá-lo, que o fizesse.

O velho Winchester estava, como de hábito, pendurado na parede. Era um autêntico Winchester, um exemplar anterior à remodelação de 64. Sam pegou a arma e começou a inserir os cartuchos. Com a arma devidamente carregada, voltou a sentar na poltrona diante da vidraça. Ele então encheu mais um copo, que bebeu de uma vez só. A arma em suas mãos provocava uma sensação estranha. Por um instante, a imagem de Ernest Hemingway passou pela sua cabeça. Olhou para o lado e disparou o rifle contra o espelho.

Lágrimas correram de seus olhos, porém, ele as secou com a manga em seguida. Se ao menos não estivesse sozinho. Não era medo, nem mesmo ficara nervoso com a ameaça. Para falar a verdade, ele tinha medo. Não do homem que fizera ameaças por telefone, e sim, do homem refletido no espelho antes do tiro.

Sam levantou e foi buscar o telefone, que largou sobre a mesinha ao lado da poltrona. Ele refletiu alguns minutos. Então, deitou o rifle carregado sobre as pernas e discou. Não demorou muito para que atendessem:

– Alô?

– Olá, Warren. É o Sam.

– Ah, olá, Sam! Tudo bem com você?

– Você poderia vir até aqui? Acabei de receber uma ligação estranha. O Al disse que está vindo para cá e que vai me matar.

– Está falando sério?

– Bem, acho que o desgraçado está bêbado, mas pode ser sério. Estou com o meu rifle aqui no colo e não gostaria de ficar sozinho com ele.

– Ok, Sam. Fique tranqüilo. Estou a caminho…

Sam colocou o telefone de volta no gancho e ficou observando os últimos raios de sol caírem sobre o vale. Não sentiu o tempo passar. As luzes do carro de Warren logo apareceram no horizonte. O amigo entrou na casa e Sam não perdeu tempo:

– Olá, Warren. Pegue um copo e vá sentando...

– Que diabos está acontecendo?

– Parece que o Al não gostou da montagem final do filme. Ele acha que eu o prejudiquei.

– Mas o corte final não seria responsabilidade do Steve?

– E o idiota deve estar ligando para isso? Além do mais, não sou de me esquivar de um conflito. Você não pode ter drama sem conflito.

– Me parece que você tem arranjado bastante conflito ultimamente. Ás vezes acho que você quer é se destruir.

– Olha aqui, Warren: Eu chamei você por que ninguém mais me agüenta. Mas, desse jeito, eu é que não vou aguentar você.

– Tudo bem, tudo bem. Não está mais aqui quem falou!

– Isso é tudo culpa daqueles executivos veados! Eu entendo do que faço! Não parece suficiente para eles. Dão para qualquer babaca o poder de decisão enquanto o diretor coloca o cheque no bolso e vai para casa. Outro dia o Steve me jogou uma garrafa...

– Acertou?

– Não. Mas desperdiçou um bom champanhe! É o que dá fazer filme por dinheiro. Eu precisava de um sucesso, Steve precisava de um sucesso. Mas, que inferno! Não é assim que eu trabalho!

– Sei, sei. E Joie, onde está?

– Faz alguma diferença?

– Você não casou com ela uns três meses atrás lá no México?

– Muitas vezes não lembro o que fiz no México. A maldita tequila, você sabe.

Os dois homens ficaram bebendo em silêncio por alguns minutos. Entretanto, não era um silêncio constrangedor. A pergunta poderia ter sido indiscreta e a resposta um tanto mal humorada, mas nada disso importava para amigos como eles. Permaneceram assim até que Sam falou:

– Joie voltou para Londres. Ela pediu o divórcio... O que você acha disso?

Warren nada respondeu. Olhou para o amigo e sua expressão disse tudo o que era preciso.

– Já fiz muitas besteiras no México, Warren. Algumas coisas boas também.

– Lembra de quando você pegou umas moças no bordel de Parras para fazer aquela cena comigo e com o Ben só para dizer que a Warner tinha pago prostitutas para o filme?

As gargalhadas estremeceram a casa escura. Warren continuou, depois de quase perder o fôlego:

– Talvez fosse melhor fazer uma visita ao México. Você ama mesmo aquele lugar, não é?

– Deve ser por que lá eu tenho a ilusão de que o tempo dos homens livres ainda não acabou. É um país lindo, não sei como descrever exatamente. O México é uma sensação, uma paixão... Um santuário. Sempre voltarei ao México. Quem sabe um dia eu vá até lá procurar por um cemitério de elefantes.

Sam passou a mão pelos cabelos grisalhos, que já estavam ficando escassos, e suspirou. As paisagens fantásticas dos desertos de Chihuahua e das montanhas de Sierra Madre povoavam sua mente. Nas livres pradarias da imaginação, homens impiedosos como o deserto e imponentes como as montanhas cavalgavam a eternidade dos sonhos. Homens que não existiam mais, de uma era que desaparecera nas areias do tempo.

Entre uma bebida e outra a madrugada transformou-se em dia outra vez. A luz tímida matinal invadiu a sala onde os dois homens conversavam como se o mundo lá fora estivesse parado. No entanto, ainda lembravam o motivo que os reunira de forma tão abrupta no início da noite anterior. Warren sacudiu a garrafa para não desperdiçar as últimas gotas. Olhou para o relógio e só então percebeu quantas horas haviam passado desde sua chegada. Enfim, comentou:

– É... Parece que o Al não vem...

– O cretino deve ter caído em algum esgoto por aí.

– E agora?

– Bem, que tal abrirmos uma garrafa de conhaque?
Copyright 2011 Cesar Alcázar

segunda-feira, 7 de março de 2011

Caro editor...



1 - Caro editor, por que você continua devolvendo minhas histórias?

2 - Você deveria imprimí-las e me fazer rico e famoso.

3 - O que há com você?

quarta-feira, 2 de março de 2011

A melhor cantada dos Quadrinhos

Corto Maltese é um dos mais celebrados heróis a engrandecer as páginas das Histórias em Quadrinhos. Criado em 1967 pelo italiano Hugo Pratt, o pirata/mercenário/bon-vivant aventurou-se ao redor do mundo durante quase três décadas, deixando milhares de fãs extasiados com roteiros brilhantes e arte soberba.

Um belo exemplo desta arte pode ser encontrado nos últimos quadros de “A balada do mar salgado”, onde Corto dá uma cantada brilhante na bela Pandora, apenas para levar um fora monumental em seguida...

Pandora: Bom dia, Corto Maltese!

Corto: Ei! Você está muito bonita! Me faz lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré ‘Parda Flora’, em Buenos Aires.

Pandora: De certo havia lá alguma parecida comigo?

Corto: Não. É precisamente por você não se parecer com ninguém que gostaria de encontrá-la sempre… em toda a parte…

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sagas Vol. 2 Estranho Oeste: Poster promocional

Poster promocional criado gentilmente pelo amigo Eric Newsom. http://twitter.com/#!/ericreadscomics

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

PRÊMIO NEBULA (EUA): Christopher Kastensmidt é finalista na edição 2011

A noveleta de fantasia brasileira O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara é finalista do prêmio mais importante da literatura fantástica nos Estados Unidos

Conhecido como o Oscar da literatura fantástica por ser votado pelos profissionais da área, o Prêmio Nebula destaca, anualmente, os melhores trabalhos de ficção científica e fantasia publicados nos Estados Unidos. Na edição 2011, um dos finalistas é conhecido do público-leitor do gênero no Brasil. O norte-americano Christopher Kastensmidt, que vive no País há mais de 10 anos e reside em Porto Alegre (RS), está concorrendo na categoria melhor noveleta do Nebula com a história O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara.

Essa primeira aventura da dupla de heróis criada por Kastensmidt fez sua estreia na revista norte-americana Realms of Fantasy (uma das mais importantes da área) em abril de 2010, com o título The fortuitous meeting of Gerard van Oost and Oludara. No Brasil, O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara foi lançado em São Paulo pela Devir Editora no fim de 2010, no primeiro volume da coleção Duplo Fantasia Heróica. Em Porto Alegre, o lançamento ocorreu em janeiro de 2011. Ao contrário da grande maioria dos lançamentos do gênero, essa história é ambientada em território brasileiro.

A série, que terá continuação, é intitulada A bandeira do elefante e da arara, ou The elephant and macaw banner. Para divulgar a série, o escritor criou um site, onde publica arte, notícias e explicações sobre as referências históricas e culturais da série. O endereço é http://www.eamb.org/brasil/.

Assim como os antigos bandeirantes, O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara também rompe o Tratado de Tordesilhas e abre o território e cultura brasileira para a literatura do tipo espada e feitiçaria — engendrada por escritores como Robert E. Howard (criador de Conan) e Fritz Leiber (criador da dupla Fafhrd e Gatuno) —, que combina aventura e criaturas sobrenaturais e fantásticas.

Na noveleta, Kastensmidt apresenta os personagens Van Oost, um aventureiro e viajante holandês, e Oludara, um guerreiro ioruba tomado como escravo. Eles se encontram em Salvador durante o Brasil Colônia, dispostos a, com muita astúcia e coragem, formar uma dupla de herois como nunca se viu.

Christopher Kastensmidt nasceu nos Estados Unidos, mas vive no Brasil há mais de dez anos, residindo em Porto Alegre. Cursou engenharia de computação na Rice University, em Houston, Texas. No Brasil, foi sócio da empresa Southlogic Studios, que mais tarde foi vendida para a Ubisoft, uma empresa multinacional de videogames junto à qual Kastensmidt se tornou diretor criativo. Criou o conceito original e design do jogo brasileiro mais vendido no exterior, o Casamento dos Sonhos, com mais de um milhão de vendas. Atualmente é professor e consultor, especialista em criação de narrativas e propriedade intelectual. Já publicou ficção em diversos países, incluindo Brasil, Estados Unidos, Dinamarca, Escócia, Grécia, Polônia e República Checa.

PRÊMIO NEBULA – O Prêmio Nebula é organizado pela Science Fiction and Fantasy Writers of America (SFWA – www. www.sfwa.org). A cerimônia de entrega ocorrerá no final de semana de 19 a 22 de maio de 2011, em Washington – DC. Reconhecidos escritores do gênero fantástico como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e Neil Gaiman já foram premiados no Nebula. O site oficial do prêmio é www.nebulaawards.com. A lista completa de finalistas, divulgada no dia 22/fevereiro, está publicada em http://www.sfwa.org/2011/02/2010-nebula-nominees/.

Parabéns Christopher!!!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Sagas Vol. 1 Espada e Magia na Cultura

Foto tirada na loja de Porto Alegre. Adquira o seu exemplar online aqui. Você também pode encomendar e retirar o Espada e Magia na Cultura de sua cidade (São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Campinas, Brasília, Salvador e Fortaleza).

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Da lenda para a tela

Para os céticos, é mais fácil acreditar que o célebre Rei Arthur não tenha existido. Até hoje não foram encontradas provas consistentes de sua existência. Entretanto, é impossível negar o impacto dessa belíssima lenda na literatura. Desde o relato mais antigo conhecido, datado do século IX, o heróico rei e seus Cavaleiros da Távola Redonda têm fascinado gerações de leitores.
Este legado de aventura e fantasia obviamente foi parar nas telas do cinema, com resultados diversos:


Os Cavaleiros da Távola Redonda – 1953
Knights of the Round Table
Direção: Richard Thorpe
Com: Robert Taylor, Ava Gardner, Mel Ferrer, Anne Crawford, Stanley Baker, Felix Aylmer

A primeira versão cinematográfica das lendas arthurianas digna de nota foi o clássico de 1953 Knights of the Round Table, estrelado por Robert Taylor no papel de Lancelot. Este filme oferece uma leitura bem “família” da lenda de Camelot, excluindo todo o material controverso. Até mesmo o romance adúltero entre Lancelot e Guinevere não poderia ter sido retratado de forma mais inocente.
Taylor vinha de sucessos como Quo Vadis (1951) e Ivanhoe (1952). Estava no auge da carreira. Por isso, Knights of the Round Table se concentra na sua figura e não no Rei Arthur interpretado sem muito brilho por Mel Ferrer.
Uma boa diversão, cujos maiores atrativos são a beleza de Ava Gardner, no papel de Guinevere, e a excelente atuação de Stanley Baker como o sombrio Mordred.


Camelot - 1967
Idem
Direção: Joshua Logan
Com: Richard Harris, Vanessa Redgrave, Franco Nero, David Hemmings, Lionel Jeffries, Laurence Naismith

Versão para o cinema do notório musical de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe (My fair Lady). Com três horas de duração, este filme testa a paciência do espectador. Para quem não gosta de musicais então, é praticamente insuportável. Hoje em dia, Camelot é mais lembrado pelo romance fora das telas entre Franco Nero e Vanessa Redgrave. Os admiradores das lendas arthurianas podem ignorar sem medo essa produção.


Lancelot Du Lac - 1974
Idem
Direção: Robert Bresson
Com: Luc Simon, Laura Duke Condominas, Humbert Balsan, Vladimir Antolek-Oresek, Patrick Bernhard

O estilo cru, seco e desprovido de sentimentos utilizado pelo diretor Bresson não combina muito com a clássica história narrada por Malory em “La morte d’Arthur”. O que resta das lendas Arthurianas se lhes são retiradas a magia, o heroísmo e a paixão?
Lancelot Du Lac é um filme para poucos. Uma daquelas obras do dito “Cinema de Arte” que corre o risco de ser encarada como pura arrogância intelectual por parte do público. Por outro lado, não deixa de ser interessante por apresentar uma visão radicalmente diferente de tudo que já se viu sobre o reinado de Arthur.


Excalibur, a espada do poder - 1981
Excalibur
Direção: John Boorman
Com: Nigel Terry, Helen Mirren, Nicholas Clay, Cherie Lunghi, Paul Geoffrey, Nicol Williamson, Robert Addie, Gabriel Byrne

Esta verdadeira obra prima de John Boorman é a melhor releitura da lenda de Arthur feita para o cinema. Um filme intenso e criativo, recheado de cenas antológicas. Nicol Williamson, em atuação excepcional, tornou-se o mago Merlin definitivo das telas. O roteiro condensa muito bem as diversas fontes literárias (tendo Malory como principal inspiração) e acompanha a jornada do Rei Arthur desde antes de seu nascimento até o derradeiro combate com seu filho/sobrinho Mordred. Apesar das duas horas e meia de duração, Excalibur flui com perfeição e até poderia ser mais longo, pois alguns momentos parecem apressados. Outro atrativo é a presença de vários futuros astros como Helen Mirren, Gabriel Byrne, Liam Neeson e Patrick Stewart, na época ilustres desconhecidos.


As brumas de Avalon – 2001
The mists of Avalon
Direção: Uli Edel
Com: Anjelica Huston, Julianna Margulies, Joan Allen, Samantha Mathis, Caroline Goodall, Edward Atterton, Michael Vartan, Michael Byrne, Hans Matheson

Atroz adaptação para a TV da obra lendária de Marion Zimmer Bradley. Esta mini-série simplesmente joga no lixo as excelentes idéias do livro (que no Brasil foi dividido em quatro volumes) e transforma a trama em uma “novela das oito” medieval. Julianna Margulies até está bem como Morgana, mas os demais protagonistas são catastróficos.


Rei Arthur – 2004
King Arthur
Direção: Antoine Fuqua
Com: Clive Owen, Ioan Gruffudd, Mads Mikkelsen, Joel Edgerton, Hugh Dancy, Ray Winstone, Ray Stevenson, Keira Knightley, Stephen Dillane, Stellan Skarsgård

Poderia ter sido um bom filme... Esta produção teve a pretensão de mostrar um Arthur realista e historicamente correto, e chegou a usar como chamada a frase “A história do homem por trás da lenda”. Legítimo caso de propaganda enganosa. O roteiro é uma verdadeira piada no quesito histórico (erraram até o lado da Bretanha pelo qual os saxões invadiram) e muito distante da lenda para ser considerado um filme sobre o Rei Arthur. Se os produtores tivessem colocado outros nomes nos personagens e feito uma pesquisa de dois minutos na Wikipedia, poderiam ter realizado um filme excepcional.

Outros filmes sobre o Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda:

http://en.wikipedia.org/wiki/Category:Arthurian_film_and_television

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Sagas Vol. 2 vem aí...

Detalhe da capa de Sagas Vol. 2 - Estranho Oeste. Arte de Fred Macedo. Este será o segundo lançamento da Argonautas Editora.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ernie e Russ - por Cesar Alcázar

O salão do Le Sphinx fervilhava com soldados, aventureiros e jornalistas. Todos comemoravam a recente libertação de Paris pela Résistance e pelos americanos da 4ª Divisão de Infantaria. Havia celebração em cada canto, e as prostitutas faturavam como nunca. A cidade era uma festa.

Cercado por oficiais e repórteres, um correspondente de guerra narrava de forma vibrante suas arriscadas experiências nos campos de batalha. O notável jornalista era também escritor de sucesso, um extraordinário contador de histórias. No entanto, já se cansava de entreter os militares e suas mentes simplórias.

Em meio às perguntas embriagadas, ele avistou um rapaz que bebia a sós na mesa escura do outro lado da sala. O semblante do jovem soldado possuía um ar de sagacidade e deboche que agradava o escritor. Pensando que aquele sujeito seria uma companhia mais interessante do que a que dispunha no momento, pediu licença aos demais e foi até ele.

– Posso sentar aqui? – perguntou ao rapaz enquanto puxava a cadeira e jogava um beijo para Camille, a prostituta que o recebera horas antes.

O jovem, por sua vez, reconheceu de imediato quem lhe dirigia a palavra e ficou sem saber o que dizer.

– Qual é o seu nome, soldado?

– Russell Albion Meyer, da 166th Signal Photo Company, senhor. Mas todo mundo me chama de Russ.

– Senhor? Por acaso tenho cara de militar? Ernie está bom.

O jovem cameraman sorriu com a inesperada informalidade do ilustre correspondente, que continuou:

– Você parece bem jovem, quantos anos tem?

– Completei vinte e dois em Março.

– Esteve no desembarque em Omaha Beach, correto?

– Sim, as imagens que fiz irão para o cine-jornal.

– Foi uma luta terrível. É preciso muita coragem para participar de uma coisa daquelas. Ainda mais desarmado.

– A câmera é minha arma – Russ contestou em tom espirituoso – e acho que não tive muita escolha.

– Como a pena do escritor, não é mesmo? Sempre mais forte do que a espada. E, também na escrita, não temos escolha. É escrever ou enlouquecer.

Os dois riram e sorveram longos goles de suas cervejas.

– Está se divertido, Russ?

– Bastante, senhor.

Ernie olhou para Russ com a sobrancelha direita erguida, em sinal de reprovação. O jovem percebeu no mesmo instante e corrigiu:

– Ah! Desculpe. Ernie...

– E então, qual delas você vai escolher? – Ernie gesticulou na direção das belas mulheres que alegravam os presentes.

– Infelizmente, não tenho dinheiro para isso.

– Depois de tudo que você passou? Além do mais, deve fazer um tempão que você não tem uma mulher por causa dessa guerra.

– Na verdade... Bem, como posso dizer... Eu nunca estive com uma mulher antes.

– Você está brincando?

– Não. É que... Talvez não seja certo, e além do mais, nunca tive a oportunidade.

O escritor ficou estupefato. Ele bebeu o que restava de sua cerveja em um gole só e falou:

– Quando se vai para a guerra ainda garoto, você tem uma grande ilusão de imortalidade. Outras pessoas são mortas, você não... Então, quando você está gravemente ferido pela primeira vez, você perde essa ilusão e sabe que pode acontecer com você. Pelo que posso observar, você ainda tem essa ilusão. A vida pode ser muito curta, rapaz. Por isso quero que você escolha a mulher que quiser aqui. Eu pago. Nem pense em recusar! Não há nada de errado nisso. Não sei como foi a sua criação, mas aposto que protegeram você demais. Esqueça tudo o que ensinaram sobre conceitos morais, pecado e essas outras bobagens. Não há nada de errado em viver. E aproveitar a vida é a única coisa decente que podemos fazer.

Russ ficou um pouco surpreso. Chegou a pensar que o jornalista estivesse brincando. Ernie logo exclamou:

– Vamos lá, escolha!

O rapaz olhou à sua volta e seus olhos se fixaram em uma belíssima morena italiana, de pernas fortes e seios fartos.

– Tome esses dólares, serão suficientes. Agora vá até lá e convide-a para subir!

Com um sorriso que era um misto de alegria e apreensão, Russ agradeceu e caminhou até a moça. Em seguida, os dois desapareceram do salão.

– Preparado para a guerra, despreparado para a vida. Exatamente como eu na Itália. – Ernie pensou em voz alta.

O Tenente Baldry, que ouvira a conversa o tempo inteiro, se aproximou do escritor e disse:

– Aprecio o que acabou de fazer pelo rapaz, Mr. Hemingway.

– Gostei dele. É um homem inteligente. Acho que terá um belo futuro agora.



Ernest Hemingway encontra Russ Meyer, por Cesar Alcázar (baseado em uma história real)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Para onde foram os aventureiros?


São muitos os autores cujas vidas pessoais conseguem ser tão interessantes quanto seus trabalhos de ficção. Aqui, em frente ao computador, tudo isso parece tão distante. Quase irreal.
Como não vibrar com Hemingway na África. Jack London no Alaska. John Reed no México e na Rússia.
Quem não gostaria de ter viajado como Stevenson, Melville, Conrad ou Saint-Exupery? Ou até mesmo Jack Kerouac e Hunter S. Thompson?
Vejo as estantes das livrarias com os autores atuais, e as orelhas de seus livros onde a informação mais importante sobre eles é a faculdade que cursaram, e me pergunto: para onde foram os aventureiros?

sábado, 15 de janeiro de 2011

Imperdível: Lançamento "Duplo Fantasia Heroica" em Porto Alegre

Chegou um momento muito esperado para os fãs do estilo Espada e Magia: o livro "Duplo Fantasia Heroica", que contém a novela "O encontro fortuito de Gerard Van Oost e Oludara", escrita pelo amigo Christopher Kastensmidt, terá lançamento e sessão de autógrafos em Porto Alegre!

Eu estarei lá prestigiando esse belo evento!

LANÇAMENTO DE O ENCONTRO FORTUITO DE GERARD VAN OOST E OLUDARA, com sessão de autógrafos de Christopher Kastensmidt.
Data e horário: 18 de janeiro de 2011 (terça-​feira), a partir das 19h.
Local: Livraria Cultura – Bourbon Shopping Country (Av. Túlio de Rose, nº 80 — Porto Alegre — RS).

Preço: R$ 15,90 (exemplar) /​Formato: 9 x 15 cm /​128 páginas

Estou de volta!